Joelmir Beting
Eu topo ficar no escuro e sem telefone. O que temo no bug é ficar sem dinheiro, sem depósito, sem extrato, sem memória bancária.
Aristeu Ravanelli, advogado.
Cofres sem grilo
Coordenador do Comitê Banco Central 2000, Antonio Matos do Vale tranquiliza 42 milhões de poupadores e correntistas e 21 milhões de aposentados e pensionistas: os bancos brasileiros estão vacinados contra o bug do milênio em seus sistemas computadorizados e em seus equipamentos chipados. E todos eles se armaram com planos de contingência para neutralizar problemas com bugs alheios na energia e nas telecomunicações e fornecedores diversos.
O próprio Banco Central aprontou para uso próprio um estoque de 7 dias de óleo diesel para os geradores da casa. E montou esquemas alternativos de comunicação para dentro e fora do País. Matos do Vale lembra que os planos de contingência dos bancos estão sob inspeção do BC e de auditorias independentes.
Para a vasta massa de usuários do sistema financeiro (metade da população adulta), a Febraban, entidade nacional dos bancos, avisa que a movimentação das contas, agora em dezembro, está sendo registrada em duas fitas magnéticas, segundo o padrão backup (cópia de segurança). Essa cópia será arquivada por 180 dias.
O próprio BC cuida de tirar backup de todos os seus sistemas, arquivos e operações. E mais: encerrará às 17 horas de sexta-feira, 31, o regime de compensação bancária e toda a contabilidade para o fechamento dos balanços anuais das instituições financeiras. As taxas de câmbio do dia serão divulgadas às 11h30. Por volta das 18 horas, todos os computadores do BC serão desligados. Eles vão passar pela virada literalmente fora da tomada.
Na remoção do bug, o sistema financeiro investiu cerca de R$ 1 bilhão. Bancos, fundos, corretoras, consórcios e cooperativas de crédito tiveram de assinar uma Declaração de Conformidade, com indicação do diretor responsável por ela. Problemas com o bug (e não apenas nos bancos) serão objeto de ações judiciais indenizatórias por perdas e danos, com direito a processos criminais.
Relatório da Moody, agência americana de classificação de riscos de crédito, coloca o Brasil no restrito bloco dos países de melhor adequação aos desafios do bug bancário. A Febraban coordena campanha de esclarecimento para evitar uma corrida aos bancos na última semana do ano. O BC providenciou emissão extra de R$ 7 bilhões para irrigar o sistema.
As bolsas de valores e de mercadorias, com operações a futuro e com sistemas de custódia e de compensação de títulos privados, realizaram testes em cadeia e tiraram nota 10. E a CVM avisa que nove em cada dez das S.A. negociadas em bolsa também já fizeram a lição de casa.
Secos & Molhados
Megarrede
- Os 184 bancos brasileiros devem compensar, em dezembro, cerca de 27 milhões de cheques, transferências e cobranças. A compensação envolve 15 centralizadoras, no topo de uma pirâmide de 19.468 agências, postos e caixas eletrônicos.
Pente-fino
- Além dos testes internos, os bancos realizaram, este ano, cinco testes integrados em rede. Com participação do BC, Cetip, Selic, BB, CEF, Anbid, Andima, Tecban, Siscomex, bolsas e administradoras de cartões.
Meio mundo
- O mercado está tranquilo também do lado externo. O BC integra um pool de 27 bancos centrais para ações em bloco na cabeceira do Y2K (o bug). Desde 1994, com QG na Basiléia.
Sem grilo
- Não houve, até ontem, virada da última quinzena, nenhum problema de liquidez global (ou interna) ligada ao medo do bug. Era esse o terrorismo cibernético de setembro, lembram-se?





