‘‘Não sei se os brasileiros estão acreditando no Brasil. Os estrangeiros estão. E não só com discurso, mas com capital a perder de vista.’’
Antonio Corrêa de Lacerda, economista
Brasil supera China
O Brasil acabrunhado acaba de ultrapassar o planeta China e fecha o ano da sinistrose nacional ostentando o troféu de bola da vez do capital produtivo das empresas internacionais, multinacionais e transnacionais. No ano, uma recepção de US$ 27,5 bilhões, contra US$ 26 bilhões da China. Fonte: Bacen/Sobeet/Unctad/Bird.
De janeiro de 1995 a dezembro de 1999, cinco anos de Real, os investimentos estrangeiros diretos (sem contar os reinvestimentos de lucros das empresas já estabelecidas) totalizaram US$ 90,8 bilhões, a dólar médio de outubro. No mesmo período, a China Comunista recebeu uma transfusão neoliberalista de US$ 182,2 bilhões, o dobro da nossa. Ou perto de US$ 270 bilhões, desde a ‘‘chinastroika’’ de Deng Xiaoping, em meados da década passada.
Antes do Plano Real – programa de estabilização com desindexação – o ingresso do capital externo na economia brasileira não passava da média anual de US$ 1,4 bilhão. Autor de O Impacto da Globalização na Economia Brasileira (Editora Contexto), já na 4ª edição, Antônio Corrêa de Lacerda comenta: ‘‘O aumento do poder de compra do dólar (em reais), de quase 60%, explica parte do fenômeno. Eles estão de olho gordo mesmo é no Brasil 2005, no Brasil 2010, no Brasil 2020...’’
Professor da PUC-SP e diretor da Sociedade Brasileira de Estudos das Empresas Transnacionais (Sobeet), Antônio Corrêa de Lacerda lembra que essa escalada de investimentos diretos serve-se de uma dezena de apelos: 1) a percepção de que o Risco Brasil a médio ou longo prazo é um refresco; 2) a necessidade de ocupar novos mercados e de lançar novos produtos e serviços; 3) a idéia de que o Brasil tem massa crítica para desfilar crachá de ‘‘global player top ten’’; 4) a garantia da ração suplementar do Mercosul ajuizado e ampliado; 5) a passagem do bonde das privatizações; 6) o atalho das incorporações de empresas brasileiras; 7) a urgência da modernização, da ampliação e da diversificação das subsidiárias já em operação; 8) o desembarque de empresas globais retardatárias em setores até recentemente vedados ou ‘‘reservados’’; 9) a ‘‘guerra fiscal’’ entre Estados e municípios na atração preferencial de empresas estrangeiras; 10) ainda algum rescaldo nas antigas vantagens comparativas do tipo ‘‘recursos humanos generosos’’ e ‘‘recursos naturais abundantes’’.
Em resumo: de tudo um pouco na explicação do fenômeno. A caminho de mais US$ 270 bilhões nesta próxima década 2000/2009. Com ênfase, pela primeira vez, no ‘‘agribusiness’’, a partir de 2005.




Secos & Molhados
Transfusão
- O Terceiro Mundo recebia das múltis (a dólar de 1998) investimentos diretos pela média anual de US$ 4,7 bilhões nos anos 70. Ou de US$ 12,4 bilhões nos anos 80. Com a globalização, a coisa disparou para US$ 117 bilhões nos anos 90. Com pico de US$ 189 bilhões em 1997, antes do novembro negro made in Ásia. Fonte: Unctad/WIR 1999.
Inclusão
- Com os capitais produtivos, vêm a bordo empresas, tecnologias, mercados, negócios, serviços, parcerias, impostos, salários e empregos. A tal ponto, que a fatia dos 30 países mais ricos (grupo OCDE) no PIB global declinou de 74%, em 1970, para 61%, em 1997. Metade do Terceiro Mundo (bloco Unctad) ganhou até crachá de ‘‘países emergentes’’.
Woodstock
- E tome o Woodstock das ONGs dos países ricos no rodapé da OMC, em Seattle. Quem tem realmente de reclamar da globalização não é a CUT nem a CNBB. São os sindicatos e os candidatos americanos e europeus. De preferência, dando carona a ecologistas, a luteranos e a panfletários de sempre.

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