Joelmir Beting
Virou tudo uma discussão sobre vírgulas e depois das vírgulas. O que realmente importa é que a inflação continua sob controle.
Fernando Henrique Cardoso, presidente da República
De bom tamanho
Sete em cada dez executivos financeiros apostam na manutenção da taxa básica de juros na reunião de amanhã do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central. Essa taxa, vulgo Selic, está congelada em 19% desde 22 de setembro. O viés, que já foi de alta e vinha sendo de baixa, está posicionado no neutro desde novembro.
A discussão é, sim, sobre o depois da vírgula. Para quem acredita em elevação da taxa para, digamos, 19,25% a justificativa estaria na bolha inflacionária deste último trimestre, exatamente na corcova do consumo natalino. E o IPCA, índice oficial da inflation targeting verde-amarelo, é capturado nos terminais do consumo.
Para os que admitem nova redução da Selic, tipo 18,75%, o argumento é estatístico. Primeiro: bolha inflacionária, sim, mas já no declive, com o IPCA decaindo de 1,19% em outubro para 0,95% em novembro. E com pinta de 0,70% agora em dezembro. Segundo: está mais que na hora de reverter a biruta da sinistrose nacional, cimentando a plataforma de uma redução orquestrada dos juros na ponta (com ampliação monitorada dos créditos) único atalho para o relançamento do consumo, da produção e do emprego em 2000.
Epa! Crédito maior a custo menor não reabriria, daí, sim, a jaula da inflação de demanda? De novo, o (falso) dilema: a) se atrofiar o crédito bancário, a recessão pega; b) se afrouxar o crédito bancário, a inflação come. Ou será que não? O que segura a inflação na jaula do Real, com uma e outra escapadela no depois das vírgulas, é o belo quarteto dos cães de fila:
desindexação/concorrência/modernização/resistência. Sim, resistência do consumidor brasileiro, cada vez mais informado, exigente e seletivo.
Para uma certa análise preguiçosa, com livre trânsito na mídia, a inflação só não explodiu no choque cambial e no tarifaço trapalhão porque a recessão e o desemprego furaram os olhos da fera. Nenhuma palavra de respeito à lógica dessinercialização dos índices de preços, aos ganhos de produtividade das empresas, aos embates da competição em quase todos os mercados e à redescoberta do poder de decisão dos consumidores (92,5% dos quais trabalhando, com ou sem vínculo formal de emprego).
Sustentar que só a recessão segura a inflação é embarcar na falácia acadêmica número dois. A número um foi a tal de âncora cambial segundo a qual no dia em que o Brasil soltar o câmbio o Real acaba na fossa negra da inflação anual de três dígitos. Lembram-se? Em fevereiro, com dólar espetando R$ 2,24, um banco europeu, aqui estabelecido, projetou para este ano um IPCA de 83%!
Secos & Molhados
Mais seguro
- Para os que recomendam a manutenção da Selic em 19%, o negócio é evitar o risco de uma eventual puxada para o alto após uma baixa forçada. Haveria perda de credibilidade para o regime de metas inflacionárias (inflation targeting).
Bom tamanho?
- O governo comprometeu-se com taxa real de 10% até dezembro. Promessa cumprida: Selic de 19% menos IPCA de 9% (8,29% até novembro). Com IPCA acima de 0,70% no mês e Selic de 18,75%, a taxa real ficaria abaixo de 10%.
Uma façanha
- Há quem diga que um IPCA abaixo de 10%, este ano, é a maior façanha destes 66 meses do Real. O índice sobreviveu ao violento coice do câmbio, ao jogo bruto das tarifas, ao choque externo do petróleo e ao choque interno da estiagem.
No declive
- A maioria dos cenaristas joga com IPCA abaixo de 7% em 2000. Com rasgos de deflação mensal no segundo semestre. Mesmo na hipótese de um PIB de + 4%.





