Joelmir Beting
A superioridade do economista sobre o resto dos mortais é que ele só fala daquilo que ninguém mais entende.
Nelson Rodrigues (1912-1980), jornalista e dramaturgo
O pior já passou?
A bola de cristal volta a brilhar no noticiário econômico. Agora, para funcionar como telão do Brasil 2000. Virada do ano é tempo de cartomância recheada de álgebra, diria Mário Henrique Simonsen. Nós, da mídia, participamos alegremente dessa caça aos prognósticos produzidos por cenaristas bem equipados.
Parece que o retumbante vexame das projeções da catástrofe nacional, formuladas em pleno choque cambial de janeiro e fevereiro, já foi riscado da memória coletiva. Então, a ordem é fazer previsões juradas fortes para a travessia de 2000 no câmbio, nos juros, nos déficits, na inflação, no (des)emprego, nas exportações, no PIB...
A coluna acaba de arquivar 32 cenaristas ouvidos, nos últimos dez dias, por jornais do eixo Rio-São Paulo. São acadêmicos, na maioria, dando carona, nessa adivinhação, a consultores de bancos e a empresários da indústria e do comércio. Todos se confessam relativamente seguros na montagem dos respectivos prognósticos.
Vejamos o câmbio, variável esotérica. Dos 32 cenaristas, nada menos de 26 admitem que o ajuste cambial já se deu. Ou seja: vai dar para atravessar todo o ano novo com dólar trafegando pela banda mole de R$ 1,80 a R$ 1,85. Algo parecido com correção nominal de 55% sobre a ruptura da banda pétrea de 13 de janeiro. Haveria, nessa correção nominal, uma sobrevalorização real de 15% a 17%, segundo três dos peritos do ramo. Gordura suficiente para segurar o dólar abaixo de R$ 1,90 até meados de 2001. Que tal?
Além do fluxo e do refluxo dos dólares no mercado, a projeção do câmbio guarda relação também com a projeção da inflação (com ou sem o core inflation do IPCA). Aí também faísca um certo consenso. Dá para enjaular o IPCA na meta de 6% do inflation targeting do Banco Central. Na média tirada pela coluna, a coisa ficaria em 6,4% (contra prováveis 9,7% em 1999).
Modernização das empresas, competição nos mercados e resistência dos consumidores fazem o tripé para o declive inflacionário a partir de janeiro. Sem âncora cambial e ainda sem ajuste fiscal. Ah! Também sem recessão. Aposta-se em PIB de 3,1% na média dos 32 cenaristas. A menor taxa é de 1%. A maior, 5%. O governo (e o FMI) contentam-se com 4%. O Banco Mundial aposta em 2,5%. E Armínio Fraga, frentista do combustível monetário, acaba de pensar, em voz alta, em crescimento de até 6%. Só se o crédito bancário saltar de 26% para 40% do PIB...
Na avaliação do grupo, o pior realmente já passou. Fica com 1999, que já vai tarde, a taça de chumbo do pior ano do glorioso Real. O cabalístico 2000 pode ser o ano da virada nacional.
Secos & Molhados
Desemprego
- A taxa do IBGE, que fecha o ano ao redor de 7,5%, tende a ser bisada em 2000, dizem os cenaristas. Com PIB pífio de 3,1%, manter ocupados 92,5% da força de trabalho já é lucro. Para voltar a crescer, o emprego geral precisa de um PIB de 7%.
Exportações
- Para 24 dos 32 profetas, vamos trocar o déficit de US$ 1 bilhão por uma sobra de até US$ 3 bilhões. Mesmo com PIB de 3,1%, que atiça importações. Dizem eles que o câmbio solto pode ter evitado, este ano, um déficit de US$ 10 bilhões.
Meia-sola
- Nas contas públicas, contam eles com superávit primário de 3,5% e déficit nominal de 6,5%. Nas contas externas, o rombo não deve passar de 4,2%, na média dos palpites coletados.
E os juros?
- Na base, espera-se por uma Selic abaixo de 17% para uma taxa real de 10% (a mesma deste ano). Na ponta, tudo vai depender do crédito maior e do spread menor (em bancos e lojas).





