Joelmir Beting
Não basta controlar a inflação no sistema de preços. É preciso atualizar, frequentemente, os critérios de cálculo do índice de preços.
Alan Greenspan, presidente do Fed-EUA (1997)
Mexendo em vespeiro
Sazonalidades e acidentalidades devem ser expurgadas do cálculo da inflação quando se adota oficialmente o regime inglês de metas de inflação, vulgo inflation targeting. Eis o conselho de nove em cada dez economistas americanos, os maiores defensores do uso ostensivo do core inflation (núcleo da inflação) também para contratos indexados em geral.
O Brasil reabre a questão do expurgo dos índices em plena bolha inflacionária de fim de ano. Ou no momento em que alguns economistas discutem a tal de inflação grávida: o inchaço visível do IPA (variação até outubro de 22,4% no atacado ou na produção) no rodapé do IPC (variação de 7,2% no varejo ou no consumo).
Nas hostes acadêmicas, teme-se pela credibilidade dos índices e pela ruptura da série histórica dos próprios. Nas hostes sindicais, fala-se em manipulação escancarada dos índices para escamotear a correção de salários e de benefícios previdenciários. Não se admitiu o expurgo nem mesmo em três décadas de economia estupidamente indexada quando uma geada na horta de Suzano, em São Paulo, fazia subir a tarifa de ônibus em Corumbá ou o aluguel do barraco em Belém do Pará.
Quem primeiro levantou a lebre do expurgo técnico dos índices de preços, ainda nos anos 70, foi Mário Henrique Simonsen. Ele pensou em voz alta sobre a conveniência de um expurgo na inflação do chuchu (sazonalidade). E foi aquele escândalo em prosa e verso durante meses.
O que esvaziou, politicamente, a idéia de um expurgo também do choque de oferta do petróleo, então adotado, sem grilo, pelos Estados Unidos, Europa e Japão.
Eis que, nas águas do inflation targeting, centrado no IPCA do IBGE, refaz-se o exame da ousada proposta dos expurgos de sazonalidades, de acidentalidades e de um ou outro choque de oferta transitório. A coisa vem vestida de core inflation. Em março, a FGV sai na frente, produzindo e divulgando o core inflation do IGP-DI, avisa Antonio Porto Gonçalves, diretor do Ibre/FGV. A Fipe/USP arregaça as mangas e já trabalha na abrasiva matéria.
Dono do IPCA, o IBGE também vai à luta sem capacete, atendendo a uma encomenda do recém-criado Conselho Consultivo do Sistema Nacional do Índice de Preços ao Consumidor. Criação tempestiva dos Ministérios do Planejamento e da Fazenda. A intenção do governo é inaugurar o expurgo em 2001. Começando pela sazonalidade de certos produtos agrícolas e por eventuais choques de oferta. De resto, como se faz nas melhores economias.
Secos & Molhados
Novo perfil
- A Fipe acaba de alterar a ponderação do IPC paulistano. Saíram do índice produtos e serviços em extinção e entraram itens de consumo moderno tais como TV a cabo, celular, fast-food, motel e camisinha. E caiu o peso do cigarro no índice.
Made in USA
- Nos Estados Unidos, Alan Greenspan espanca o tabu dos índices pétreos. Ele pede nova metodologia para o IPC. Que não estaria ponderando adequadamente os ganhos de produtividade da economia nem o novo perfil do consumo geral.
Menor ainda
- Greenspan disse ao Senado, em 1997, que a inflação americana está superestimada. Ela não estaria refletindo reduções de custos (e preços) da atual revolução tecnológica nos bens e serviços.
Ainda maior
- Tais ganhos de qualidade do sistema, segundo Greenspan, também não estão sendo capturados pela atual metodologia de aferição do PIB americano. Que estaria subestimado.





