‘‘Perguntaram a João XXIII quantas pessoas trabalhavam no Vaticano. Metade – respondeu o papa.’’
Steve Lawrence, em O papa João (1973).
Chorando na rampa
De um universo de 1,2 milhão de empresas do setor industrial, das micros às macros, nada além de 8.588 estão com um pé na canoa do mercado externo. Ainda assim, 43% delas só exportam ‘‘de vez em quando’’. As mil de maior presença lá fora respondem por 58% do total embarcado. As 53 maiores concentram exatamente metade da fatura externa. Os 25 principais produtos entram com 60% das divisas totais. E 56% das exportações brasileiras seguem para apenas sete países.
Fonte: Funcex/Apex/Ipea/AEB. Tem mais: a participação das pequenas empresas no valor embarcado não tem passado de 4%, contra 23% da média mundial. Ou mais de 55% na Itália, Alemanha, Espanha e Estados Unidos. Fonte: OMC/OIT. Resultado: estamos exportando menos de 8% do PIB verde e amarelo de tédio. O comércio mundial equivale a 27% do PNB global. Nossa fatia nesse banquete planetário não tem passado de ridículos 0,8%. Com direito a déficit de US$ 1 bilhão na balança comercial – mesmo com 58% de desvalorização cambial. Que tal?
A verdade é que não estamos importando muito. Estamos exportando pouco. O protecionismo de americanos, europeus, japoneses (e argentinos) explica parte do fenômeno. Que igualmente tem algo a ver com a baixa competitividade gerencial e tecnológica da indústria brasileira, segundo o dedo em riste da representante comercial da Casa Branca, Charlene Barshefsky. O enrosco maior está mesmo no caixão sem alça do arrocho monetário, do garrote tributário ou mata- burros alfandegário e do gargalo portuário. Um calvário.
O resto é falta de ‘‘espírito de extroversão’’, diz Dorothéa Werneck, gerente da Agência de Promoção de Exportações (Apex). Passamos meio século anestesiados pela doutrina da Cepal – segundo a qual a prioridade excludente é a da operação do mercado interno, com direito a políticas industriais de substituição incentivada de importações. Modelo digno das cidades muradas da Idade Média.
Na revista Update, da Câmara Americana de Comércio (Amcham/SP), Dorothéa Werneck sustenta que ‘‘já se está formando, finalmente, uma cultura exportadora no Brasil’’. Prova disso, diz ela, é que se amplia a pauta na cesta de produtos, no número de empresas e no valor agregado das mercadorias embarcadas. De mãos dadas com o Sebrae, a Apex investe na formação de consórcios ou cooperativas de exportação para pequenas empresas. Uma dezena já em operação, desde agosto, e mais 48 em gestação.
Em tempo: na Itália, 384 consórcios mobilizam mais de 18 mil pequenas empresas e exportam, este ano, US$ 46 bilhões.




Secos & Molhados
Acordando
- Pesquisa da Fiesp mostra que 83% das indústrias de São Paulo já querem exportar. Mas 63% não têm noção do mercado externo e 49% não sabem nem como dar o primeiro passo. Bem, querer exportar já é o primeiro passo.
Caipirinha
- Cachaça, guaraná e frutas tropicais começam a catequizar mercados lá fora e a formar consórcios aqui dentro. Tanga de praia já tem 16 consorciados em São Paulo, com própria: Tropical Spice.
Abimovel
- Forma-se no Sul um consórcio de 300 fabricantes de móveis para exportação. Cerca de 250 já exportam por conta própria. Móveis de pinus, já com certificação ambiental da americana Smart Wood.
Pode dobrar
- Se pelo atalho do consórcio as pequenas de todos os ramos levantarem a crista para o mercado externo, a meta de US$ 100 bilhões para 2002 talvez seja realmente alcançada em 2003.

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