Joelmir Beting
O mercado é global e a empresa pode ser global. O que não pode nem deve ser global é o governo.
Joseph Stiglitz, economista-chefe do Banco Mundial
Na estaca zero
Caçapa cantada. A conferência da OMC deu em nada. Os países ricos não estão a fim de baixar a guarda dos respectivos mercados semi-abertos (ou semifechados). E a baderna das ONGs (o que seria delas sem os 90 segundos nos telejornais da noite?) simplesmente vestiu a camisa dourada do protecionismo comercial de americanos, europeus e japoneses, posseiros do mercado global.
Voltou à estaca zero o projeto de ampliação pactuada do intercâmbio mundial de produtos e serviços. Até prova em contrário, o mercado global estará, como sempre, sob o estigma darwiniano da supremacia do mais forte ou do mais apto na competição dos desiguais. Festejando o fiasco da OMC em Seattle, as tais de ONGs estão aplaudindo a manutenção do regime do salve-se-quem-puder entre os governos de má vontade.
O presidente da OMC, o neozelandês Mike Moore, refere-se a Seattle como a conferência que não terminou. E tanto não terminou que os ministros de 134 países voltaram para casa, no domingo, sem levar na pasta sequer uma declaração final do encontro - fato inaudito em eventos diplomáticos do ramo.
Tecnicamente, os maiores perdedores com esse fiasco da OMC foram os países em desenvolvimento. Entre estes, os exportadores de produtos agrícolas de maior valor agregado, exatamente as mercadorias competitivas que continuam trombando com barreiras tarifárias de até 710% em seus desembarques nos portos dos Estados Unidos, da União Européia e do Japão.
Nos cálculos do ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, o protecionismo comercial tarifário e não-tarifário dos países ricos, clientela preferencial, atrofia diretamente 26% da pauta exportadora brasileira. Ou mais de 50% dela se triunfar dentro da OMC a agenda européia das salvaguardas trabalhistas e ambientais de comércio.
Na pauta brasileira, a pancadaria dos ricos tem predileção pelos nossos produtos agroindustriais liderados pelo suco de laranja, pelos derivados de soja e de café e pelas proteínas animais. Com eles, o Brasil estaria deixando de exportar, este ano, cerca de US$ 8,5 bilhões. Nos países do chamado Grupo de Cairns (o dos 18 maiores exportadores agrícolas), as vendas reprimidas totalizariam US$ 34 bilhões. Eis os verdadeiros perdedores em Seattle.
O chanceler Luiz Felipe Lampreia retornou a Brasília falando em naufrágio da OMC: As coisas não voltaram à estaca zero. Elas simplesmente ficaram piores que antes. Sábado à noite, na BBC, o ministro suíço da Economia, Pascal Couchepin, resumiu tudo: Até prova em contrário, a orquestra continua a tocar no convés do Titanic.
Secos & Molhados
Sem pacto
- Os europeus não precisam de consenso na OMC para levantar novas barreiras na importação de produtos made in Terceiro Mundo. Exemplo: fechar os respectivos portos para mercadorias produzidas com salários aviltados e danos ambientais.
Para fora
- As ONGs (algumas delas, já globais) toleram violações trabalhistas e ambientais na produção para o mercado interno. Mas não, como se viu em Seattle, na produção para o mercado externo o dos países ricos e/ou civilizados.
Discurso
- O presidente Bill Clinton serviu-se do palco de Seattle para espinafrar países que exploram o trabalho infantil. Perto de 3 milhões de pares de braços aqui no Brasil.
Como é que é?
- Nessa abrasiva matéria, temos de chegar a um acordo. Também fazemos passeatas contra o trabalho infantil. Mas o Dieese contabiliza crianças de 10 a 14 anos de idade no índice de desemprego...





