‘‘Organizações internacionais são como formigas em tronco que desce o rio. Cada uma delas pensa que está pilotando o tronco.’’
Kenichi Ohmae, consultor japonês.
Multifuncionalidade?
Os militantes de sempre, que deram de fazer uma fuzarca televisiva no rodapé da conferência ministerial da Organização Mundial de Comércio (OMC), em Seattle, estão fazendo o jogo das grandes potências, posseiras de 74% do intercâmbio internacional de mercadorias, serviços e capitais. ‘‘Abaixo a OMC! Abaixo a degradação ambiental! Abaixo a globalização!’’ Estados Unidos, União Européia e Japão não estão a fim de acelerar a construção de um mercado negociado ou pactuado com outros 117 parceiros reunidos esta semana na terra natal da Boeing, da Intel, da Microsoft e dos grunges. Eles preferem negociar nos bastidores – enquanto reina a baderna nos arredores – novos acordos de cooperação dentro da própria Tríade e ao largo da OMC. Com sobras para tratados com a China, ainda fora da OMC.
Degradação ambiental? Yes, os países ricos não querem fazer concessões comerciais aos países emergentes. Servem-se agora da proposta de ‘‘salvaguardas ambientais e sociais’’ para a barganha ofídica: só vão rebaixar a proteção tarifária e não-tarifária dos respectivos mercados se os países emergentes, ainda na idade do ‘‘capitalismo selvagem’’ (ou do socialismo idem), deixarem de praticar a produção suja e de explorar o trabalho infantil e até mesmo o trabalho escravo. E se, no mesmo embalo, pararem de fazer pirataria com patentes, licenças, marcas e direitos autorais das múltis.
Rainha do protecionismo agrícola inarredável, a União Européia ratificou, quarta-feira, em Seattle, o consenso de Bruxelas: 97% da população européia deve continuar bancando com impostos os subsídios generosos embolsados pelos 3% da população ainda ocupada nas ‘‘duras lides da terra prenhe’’.
Por quê? Porque subsídios da ordem de US$ 143 bilhões, este ano, fertilizam a prioridade a qualquer custo de 285 milhões de europeus urbanos: a segurança alimentar. No limite, hoje, do encalhe ou da fartura sem mercado. São países que, neste século que termina, submeteram milhões de sobreviventes de duas guerras continentais ao martírio de anos a fio de fome horrenda. Mitigada por sopas de rato e até por solas de sapato.
Para dourar ainda mais a pílula do protecionismo agrícola, a União Européia desfralda a ‘‘multifuncionalidade’’ da propriedade rural privada. Devidamente subsidiada, ela também preserva valores caros da sociedade civilizada: história, tradição, cultura, paisagem, recreação e monitoramento sanitário e ambiental. E vem agora essa tal de Rodada do Milênio da OMC para acabar com o tratamento favorecido a esse magnífico patrimônio coletivo? Nem pensar.




Secos & Molhados
Undertaken
- Jargão diplomático em inglês (‘‘single undertaken’’) reduz a duas palavras o relatório final da OMC em Seattle: ‘‘Nada está resolvido enquanto tudo não estiver resolvido.’’ Posição sustentada, com unhas e dentes, pela União Européia.
Tudo ou nada
- Proposta européia: ou a OMC dilata a temática da Rodada do Milênio ou não se dará um passo na direção do desmanche dos subsídios agrícolas nos dois lados do Atlântico Norte.
Ponto a ponto
- Para o chanceler brasileiro Luiz Felipe Lampréia, a agenda ampla dos europeus faria da OMC uma Torre de Babel. O Brasil propõe um avanço pontual. Começando pela questão agrícola, isoladamente.
Inocentismo
- Baderneiros de Seattle, posseiros da mídia, marcaram posição reacionária. Exigem maior protecionismo comercial dos países ricos e menor deslocamento de capitais (e empregos) para os países pobres ainda selvagens. Lindo, não?

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