‘‘Não preciso mais de dinheiro. Agora sou um homem inédito. Comprei minha liberdade com sete cartões de crédito.’’
Carlos Queiroz Telles, em ‘‘UniverCidade’’ (1975).
Abaixo o consumo!
A quem interessar possa: hoje é o Dia Sem Compras. Onde? Nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália. Um protesto orquestrado que se repete amanhã nos 15 países da União Européia. Yes, protesto contra o consumo, vulgo ‘‘Buy Nothing Day’’.
AEm sua oitava edição anual, o Dia Sem Compras é organizado por uma dezena de ONGs americanas e européias. Claro, todas elas movidas por uma visão obscurantista da atividade econômica e do comportamento humano. Em nome de postulados demagógicos que informam a contestação da sociedade de consumo desde os panfletários franceses do século passado.
Pois ainda hoje os franceses fazem passeata contra o desemprego inarredável de 12% nos dias ímpares e disparam manifestos contra a economia de mercado nos dias pares, com greves intermitentes nos serviços públicos pela adoção da Semana de 35 horas a partir de janeiro.
Em tom de galhofa, intelectuais franceses, que hoje produzem livros aos borbotões contra a globalização (que eles preferem rotular de mundialização), escrevem que o americano, quando faz a barba, pensa em voz alta: ‘‘Eu consumo: logo, existo.’’ Pois já é tempo de se fazer uma releitura adequada: ‘‘Eu consumo; logo, emprego.’’
Eis a charada. Quem faz o emprego do trabalhador não é o poupador, não é o investidor, não é o produtor, não é o distribuidor. É, simplesmente, o consumidor - que é o próprio trabalhador. Isso não está nos compêndios de Economia. Está na sabedoria de Henry Ford (1863-1947), inventor da produção em massa para o consumo em massa, reator da economia capitalista no século 20.
Com desemprego na faixa de 4%, um terço da média européia, os americanos fazem da ‘‘insopitável propensão ao consumo’’ (Veblen, 1936) o pau da barraca da prosperidade nacional. Consumo hedonista de qualquer coisa, segundo a ‘‘ética protestante do capitalismo’’ (Max Weber, 1905). Eles não cospem no prato da sociedade de consumo, não têm vergonha do lucro nem inveja do sucesso. E estão há quase meia década em lua-de-mel com a utopia socialista do pleno emprego.
O ‘‘Buy Nothing Day’’ foi inventado pelo canadense Theodore Dave. Um publicitário. Certamente, amigo do carbonário italiano Oliviero Toscani, fotógrafo da Benetton e autor de A Publicidade é um Cadáver que nos Sorri (Ediouro). Pode?




Secos & Molhados
Festança
- O ‘‘Buy Nothing Day’’ foi encaixado na virada de dezembro não por acaso. É a decolagem do consumismo natalino. Nova York, a partir de hoje, faz de Manhattan uma festança tipo carnaval brasileiro. Para compristas do mundo inteiro.
Servindo
- Nos Estados Unidos, o consumo de bens já foi ultrapassado, em faturamento (na proporção de 2 x 1), pelo consumo de serviços. Para onde se desloca o mercado de trabalho.
Majestade
- Para a empresa moderna, não basta mais saber vender nem saber comprar. A nova alma do negócio, doravante, é saber agradar. A quem? A Sua Majestade, o Consumidor. Finalmente, sentado no trono do mercado.
Que verbo!
- No Brasil, temos de refazer o Aurélio. O verbete Consumir é uma aula de alienação: ‘‘Gastar ou corroer até a destruição; devorar, extinguir, aniquilar, anular. Enfraquecer, abater, desgostar, afligir, mortificar.’’ Cruzes!

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