‘‘Em Economia Política, a sabedoria tem dúvidas. A ignorância tem certezas’’.
Eugene von Bohm-Bawerk (1851-1914), economista austríaco
Terceira via?
O espanto é de José Maria de Jesus, motorista de táxi. Ele me pergunta pelo retrovisor: ‘‘Deu no rádio que o presidente Fernando Henrique esteve reunido na Itália com líderes mundiais da centro-esquerda. Eles estão buscando uma tal de Terceira Via. Só não entendi duas coisas.
Primeira: eles perderam, por acaso, a primeira via e a segunda via? E que vias são essas? Segunda: se ouvi direito, dessa tal de centro-esquerda participam os chefes de governo da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra, dos Estados Unidos e do Brasil. Como é que pode? Que esquerda é essa? Já imaginou, então, que bicho daria uma frente de direita?’’ Procurei ser didático sobre assunto tão esotérico. Terceira Via, caro Zé Maria, é um governo (e não necessariamente uma nação) preocupado em levar o setor privado a operar com o espírito público do Estado e o Estado a funcionar com a eficiência técnica do setor privado. O assunto, por enquanto, está mais para discurso do que para recurso. Até por instinto animal de sobrevivência, o governo dito de Terceira Via está mais a fim de recolocar cabrestos no setor privado glutão que extirpar mazelas do setor público trapalhão.
Sob o rótulo de ‘‘governança progressista’’ (ficaria melhor ‘‘progressiva’’), a retórica destilada na reunião de Florença mal passa de uma tentativa de civilizar a economia de mercado (Segunda Via) por sobre os escombros da economia de comando (Primeira Via). A reestruturação física e moral do Estado – manipulado por governos que não governam porque não se governam e não se deixam governar – não entra na equação messiânica de Florença, berço de Maquiavel. Nos Estados Unidos, paradigma da opulência capitalista, governo e Congresso não conseguem reformar o sistema público de saúde já exaurido. França, Alemanha e Itália não ousam avançar na reforma do sistema previdenciário, a caminho do colapso atuarial, o da mão maior que o bolso. O Brasil reformeiro dispensa apresentação.
A declaração conjunta de amor ao crescimento econômico com justiça social e com liberdade política, assinada por Clinton, Blair, Jospin, Schröeder, D’Alema e FHC, lembra-me a história de Cornélio Pires (1945). ‘‘Um latifundiário nordestino abriu o banquete de 200 talheres erguendo um brinde aos pobres: ’Nesta hora de tanta fartura e abastança, não podemos deixar de lembrar dos pobres, os que não têm lugar nesta mesa. Ergamos, pois, nosso champanhe aos pobres: - Viva os pobres!, bradou o homem. - Viva!, responderam os 200 comensais.’ Então, almas lavadas, fisionomias iluminadas, teve início a festança.’’




Secos & Molhados
Antiga via
- A Terceira Via é uma Via Apia do século passado, made in England. Ela projeta para o século vindouro a utopia política dos socialistas fabianos, ideólogos do Partido Trabalhista de Tony Blair, fundado em 1900.
Fabianos?
- Uma sacada do irlandês Bernard Shaw (1856- 1950), líder intelectual do grupo. Referência ao general romano Fabio Cunctator, inventor da ‘‘guerra de guerrilhas’’ no século 3 a.C. O guru dos fabianos era o economista John Stuart Mill (1806-1873).
Previdência
- Até o marechal alemão Otto von Bismarck (1815-1898) entrou na pavimentação da Terceira Via, ainda no século passado. Ele inventou a Previdência Social.
Deu certo
- O economista e sociólogo sueco Gunnar Myrdal (1898-1987), Prêmio Nobel de Economia de 1974, viu a Terceira Via no ‘‘socialismo fiscal’’ escandinavo: no lugar da socialização da produção, via estatização, escolha-se a socialização do produto, via tributação.

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