Joelmir Beting
Podemos caminhar sem pressa. Mas nunca caminhar para trás.
Abraham Lincoln (1809-1865), estadista americano.
Estilo crocodilo
O crocodilo ataca, interrompe o ataque e examina as reações da vítima. Sonda a área ao redor, renova o ataque e retrocede outra vez. Reavalia a situação e dá início ao banquete, sem gula. É assim que a equipe econômica administra os vazios e os desvios das contas externas, na metáfora de Carlos Guzzo, superintendente de Assuntos Econômicos do Banco Pontual, citado ontem em O Estado de S. Paulo. Economistas da escola monetarista traduzem o estilo crocodilo por política do stop and go.
Nada de especialmente dramático nas contas externas. Salvo as projeções alarmistas dos que estão encomendando, a partir delas, o oitavo velório do Real. Agora, em nome do efeito Tailândia, que ensaia reprisar o blefe do efeito Tequila. Mas administrar o déficit é preciso. Até para sinalizar para as arquibancadas do mercado financeiro, o mais distanciado da economia real, que a gestão do plano não é passiva. Respira e funciona.
O déficit em transações correntes - resultado das operações de comércio e de serviços com o Exterior - raspou as traves de US$ 11 bilhões no primeiro quadrimestre. Alguns analistas projetam um negativo de no mínimo US$ 35 bilhões até 31 de dezembro. Com as medidas de quinta-feira, endossadas pelo Conselho Monetário Nacional, o gradualismo crocodiliano da equipe econômica pode amaciar a inclinação do processo.
Essa correção gradualista começou em março, com a proibição do parcelamento das importações com prazo inferior a 365 dias. E culmina, desde ontem, com a proibição do parcelamento das faturas do cartão de crédito utilizado no exterior. Turistas compristas parcelaram nos cartões internacionais, no primeiro quadrimestre, perto de US$ 1,3 bilhão, contra menos de US$ 0,9 bilhão no mesmo período do ano passado. A restrição vale também para as compras externas por reembolso, catálogo e Internet.
O estilo crocodilo corre com dois cavalos no mesmo páreo: reduz a evasão de divisas na conta de comércio e amplia o ingresso de dólares na conta de capital. A primeira inclui facilidades de crédito e de seguro nas exportações. Na segunda, redução do IOF de 7% para 2% (desde abril) na entrada de capital estrangeiro. E, desde ontem, reabertura dos mercados de opções e futuros em bolsa para investidores estrangeiros fissurados em hedge. Bolsas do mundo inteiro funcionam assim.
Dez milhões
- Aproxima-se de 10 milhões o total de cartões de crédito internacionais de posse dos brasileiros. Os viajantes estão gastando lá fora, com cartões, US$ 10 milhões por dia. O parcelamento atiça a compulsão de consumo que acossa o turista emergente.
Três trilhões
- O mercado global de opções e futuros em bolsa, vulgo derivativos, movimenta até US$ 3 trilhões por dia. O tal de capital cigano, volátil, de curto prazo, especulativo por vocação e necessidade. O mais arisco dos animais, diria Simonsen.
Sem arrocho
- Alívio geral na praça. Mais uma reunião do CMN e nenhuma tranca no crédito ao consumo (interno). Até porque os mercados mais aquecidos, automóveis e eletrônicos, já botaram o pé no freio. Eles embutem peças e componentes importados.
Sem refresco
- Os juros não subiram, mas não baixaram. A taxa básica do BC permanece em 1,58% ao mês desde março. Isso também atrai poupadores de fora e alivia a barra do déficit externo.





