Joelmir Beting
A China não quer ser amada. Ela quer ser respeitada.
Zhu Rongji, primeiro-ministro da China
Planeta amarelo
Endereço de um terráqueo em cada cinco, a China de Mao/Xiaoping, que ainda está comunista, acaba de selar um histórico acordo de cooperação comercial com os Estados Unidos. Esse ajuste bilateral carimba o passaporte diplomático do Planeta Amarelo para o ingresso na Organização Mundial de Comércio (OMC).
O comentário é do próprio diretor-geral da OMC, Mike Moore: O acerto com os Estados Unidos constitui um ensaio geral da China para o jogo do mercado global pactuado. Um teste que vale como atalho chinês para a OMC. Em benefício da própria OMC. Não pode existir uma organização mundial sem a participação de um país que abriga exatamente um quinto da Humanidade e já com PIB acima de US$ 1 trilhão. O sinólogo americano Robert Rachid prefere ir direto ao ponto: Para o comércio global, é melhor ter a China dentro das regras do jogo do que fora delas. Até para enquadrar o dumping chinês ostensivo ou disfarçado é preciso submeter Pequim a um fórum neutro e global, no figurino da OMC. A verdade é que a China já acumula massa crítica de sobra para pesar na economia mundial. Desde que se meteu a praticar postulados da economia capitalista, ainda sob a mão de ferro da estatocracia comunista, a China ostenta crescimento econômico de 9,6% ao ano (de 1983 a 1998). Ela vem dobrando o PIB a cada sete anos.
O mercado interno é um elástico enorme e ainda não puxado, 6,5 vezes maior que o nosso, igualmente frouxo. O que não impede Pequim de enxergar mais longe que Brasília: fazer do mercado externo um atalho para a conquista do mercado interno. Ou, como diria Deng Xiaoping, para FHC pensar na cama: mercado interno e mercado externo não são excludentes ou alternativos; eles são complementares ou aditivos.
Na barganha com os Estados Unidos (com quem a China já acumula um superávit comercial de US$ 17 bilhões), Pequim encerra uma negociação bilateral que já durava quatro anos sob as bênçãos da OMC. Está dado o sinal verde para o festim das múltis americanas no Planeta Amarelo.
Onde fábricas da Motorola, Coca-Cola, General Motors e Kodak já totalizam investimentos diretos de US$ 5,2 bilhões.
Secos & Molhados
Aliado
- Dentro da OMC, a China seria um poderoso aliado do Brasil (e dos emergentes) nas pendências com os países centrais. Na OMC, a China pleiteia crachá de país não-desenvolvido, com direito a estatuto favorecido.
Cláusulas
- Brasil e emergentes rechaçam na OMC a pressa dos ricos na armação de um tratado global para serviços. E tentam adiar a agenda mundial sobre cláusulas ambientais, sociais e de direitos autorais.
Um dragão
- Até por se fechar meio século feito caramujo na praia, a China exporta ainda hoje uma produção selvagem. Feita de poluição, pirataria e trabalho escravo.
Bilateral
- Também o Brasil desfila acordo bilateral com a China. A questão têxtil está equacionada. Do Brasil, a China pretende, no futuro, apenas uma coisa: comida.





