‘‘Não vamos transformar uma pequena subida eventual de preços na nova morte anunciada do Plano Real. Isso é, no mínimo, impatriótico.’’
Fernando Henrique Cardoso, presidente da República
Acordaram a fera?
A trégua já durava cinco anos e três meses. A da percepção coletiva de que o Brasil havia escapado de quase duas décadas de inflação anual de três ou quatro dígitos. Com direito a deflação no ano passado. Ou deflação também em maio último, no rabo de foguete do choque cambial de janeiro e fevereiro.
O quase sumiço da inflação, por sobre o cadáver da indexação, não se deu por obra e graça de congelamentos de preços. Nem mesmo por pajelança do câmbio engessado. A tal de âncora cambial acabou da noite para o dia e a inflação do Real não escapou da jaula. Os economistas, os que nos venderam a âncora cambial até 15 de janeiro, estão até hoje procurando uma explicação para o fenômeno.
Tenta-se, agora, creditar o sucesso do Plano Real no controle da carestia aos encalhes da recessão e do desemprego. O que também não explica a inflação meramente residual da cesta básica do Procon/Dieese. O índice dela acumula apenas 25% em quase cinco anos e meio de Real. Sem recessão. Seu consumo registra, no mesmo período, um aumento de 54%. Pressão de demanda que tem a ver com o reajuste de 110% do salário mínimo desde julho de 1994.
Eis que o governo, na virada do semestre, executa ao pé da letra os reajustes de tarifas embutidos nos contratos de concessão de serviços públicos e nas normas de privatização dos monopólios da energia e das telecomunicações. Contratos e normas descolados da realidade dos mercados e da inclinação dos preços. E tome um minichoque de inflação de custos nesta travessia do segundo semestre. Inflação reprimida ainda não é inflação suprimida.
A bolha inflacionária só não produziu estragos maiores porque a indústria não conseguiu, até aqui, repassar custos inflados para preços finais nos terminais de consumo. Uma alta média acima de 20% nas fábricas contra remarcação média abaixo de 10% nas lojas. O megabloco dos preços públicos e privados tabelados ou administrados pelo govereno é o vilão desta desgarrada inflacionária (e inflacionista) de fim de ano. Processo que dá carona a um movimento de reindexação de salários por iniciativa de sindicatos tão poderosos quanto desavisados.
Resultado: a inflação, que rima com escravidão, recomeça a tirar o sono dos brasileiros. Pesquisa do Vox Populi, encomendada pela Confederação Nacional de Transportes (CNT), dá a pista: 1) para 75% da população, a inflação já voltou; 2) para outros 14%, a fera escapará de qualquer controle ainda antes do carnaval. Em tempo: a oposição teria na reinflação seu maior cabo eleitoral em 2002.




Secos & Molhados
Made in USA
- O IPC made in USA subiu 0,20% em outubro, contra 0,42% em setembro. No ano, alta acumulada de 2,84%. Expurgada do choque do petróleo, a coisa não passou de 0,23% em dez meses.
Nova trégua
- A taxa básica de juros do Fed voltou ao piso de janeiro de 1997, antes da crise asiática: 5,50%. Agora, com viés neutro. O ‘‘soft landing’’ de Alan Greenspan não vai estragar o Natal de Wall Street.
Acampando
- Cerca de 1.250 ONGs de meio mundo entraram com manifesto na OMC, em Genebra, protestando contra a Rodada do Milênio em Seattle, dia 30. Onde elas pretendem desembarcar mais de 5 mil militantes de padrão MST.
Inocentismo
- As ONGs exigem salvaguardas sociais e ambientais nas trocas comerciais entre os povos. Nada de trabalho escravo, de trabalho infantil e de produção suja. No que elas fazem o jogo dos países ricos.

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