Joelmir Beting
O álcool escolheu o pior momento para subir à cabeça do mercado: o do resgate da confiança do consumidor no carro a álcool.
José Pessoa de Queiroz Bisneto, produtor de álcool.
Vício do álcool
O vício do álcool é a tutela do governo. Com ou sem desregulamentação do mercado, o governo ainda tem a força de intervenção no fluxo dos estoques e na variação dos preços no portão da usina e na bomba da esquina. Da mesma forma, tem a caneta na mão para reabilitar o carro a álcool ou não.
Única certeza, por enquanto. A disparada dos preços do carburante verde de susto não se deu na fase dos produtores e, sim, nas fases dos distribuidores e dos revendedores. Levantamento da Esalq/USP demonstra que o litro faturado pelos produtores em São Paulo foi de R$ 0,29 em outubro versus R$ 0,22 em julho. Em maio, as destilarias já acumulavam custos (sem repasse) da ordem de 30% sobre maio do ano anterior (quando valia R$ 0,41 o litro ao produtor).
O desvio de rota que desembocou no bolso do consumidor está nas margens espichadas das distribuidoras e dos postos de serviço, ambos pegando o vácuo da escalada da gasolina inflada pelo choque cambial.
Sem sonegação e sem dumping, o preço na bomba deve situar-se no máximo em R$ 0,73 para aquela fatura de R$ 0,29 na produção.
Caio Carvalho, presidente da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Única), diz à coluna que o mercado de combustíveis, contaminado, como tantos outros, pela sonegação fiscal e pela competição desleal, derruba preços quando quer e alavanca preços quando pode. Independentemente do que ocorre com os preços da gasolina (ou do petróleo).
A disparada de novembro também tem a ver, segundo estudo da Única, com a recente investida da Receita nos redutos da sonegação e com o fim do subsídio de R$ 0,127 por litro. Suporte zerado em outubro. Incorporado ao preço, essa fração, que não era tributada, alargou a base da arrecadação. Efeito líquido: impacto de até R$ 0,41 no preço final.
Puxando a sardinha para as próprias brasas, Caio Carvalho sustenta que os produtores estão refazendo preços com transparência sobre planilhas de custos produzidas pela FGV. Diz ele que não se pode comparar na produção preços de hoje com preços então defasados e até subsidiados do primeiro semestre. E muito menos, acrescenta, com preços de distribuição e revenda rebaixados pela sonegação e pelo dumping nas promoções em pé de guerra.
Secos & Molhados
Intervenção
- Pelo sim, pelo não, o governo abriu as asas sobre nós e lançou no mercado sem juízo um pacotaço de medidas de contenção e reversão dos preços em liberdade. Atingindo também os produtores, com ou sem culpa no cartório.
Cerco geral
- Para espancar reajustes de até 55% na bomba, o governo abre a mangueira do estoque regulador próprio e retira o financiamento do estoque em poder das destilarias. Em jogo, quase 2 bilhões de litros.
Importação
- O Conselho Interministerial do Açúcar e do Álcool autorizou a importação de álcool (de onde?) se o mercado não se ajustar ainda este ano. E promete incentivar combustíveis e aditivos alternativos (quais?).
Tributação
- O desgaste político do setor abre espaço para o reexame palaciano de um novo imposto para o tanque nosso de cada dia. Ora, pois.





