‘‘O Brasil sapecou a abertura comercial sem aviso prévio aqui dentro e sem exigir reciprocidade da poderosa parceria lá fora. Um gol contra.’’
Paulo Yokota, consultor
Armadura de gigante
O Brasil não consegue aumentar suas exportações para os Estados Unidos porque a indústria brasileira não tem competitividade suficiente para deslocar concorrentes europeus e asiáticos. Assinado: Charlene Barshefsky, representante do governo americano para assuntos de Comércio Exterior.
Só faltou dizer: se o Brasil entrar assim desarmado no mercado da futura Área de Livre Comércio das Américas (Alca), a indústria brasileira acabará enterrada em esquife de segunda classe. Primeiro: não terá como vender um chinelo nos Estados Unidos. Segundo: os produtos ‘‘made in USA’’ tomarão o mercado brasileiro de assalto.
Nenhuma palavra foi dita sobre o confisco de produtos brasileiros globalmente competitivos no desembarque em portos americanos. Um confisco protecionista feito de barreiras tarifárias e não-tarifárias de todo tipo e a qualquer pretexto. Ou seja: acusa- se o produto brasileiro de não ser competitivo e alega-se que o sucesso eventual de uma dezena de produtos não passa de ‘‘dumping’’ lastreado em subsídios.
Dignos, portanto, de retaliação exemplar.
Caso anedótico do suco de laranja. Fazemos um suco melhor e 50% mais barato que o suco americano. Resultado: essa vantagem competitiva está sendo confiscada nos portos americanos em até mais da metade do valor da tonelada desembarcada. Caso não menos hilariante da taxação truculenta do aço brasileiro. Pretexto: as siderúrgicas privatizadas estariam devidamente subsidiadas. Para Washington, a desestatização faz mal ao livre mercado...
Tem razão o Brasil de torcer o nariz para a pressa dos Estados Unidos na usinagem diplomática da Alca de 2005. No que estamos dando carona aos parceiros do Mercosul. É bom lembrar que o estrepitoso déficit comercial dos Estados Unidos, que caminha para US$ 1 bilhão por dia útil, constitui um banquete de manufaturados europeus e asiáticos. Com o Brasil e a América Latina, a balança americana trafega no azul cor-de-anil. Sobras de US$ 13,4 bilhões no ano passado e outro tanto este ano.
A verdade é que barreiras protecionistas americanas, antigas e novas, continuam penalizando 26% dos desembarques brasileiros. Até por causa disso, vamos fechar a década do ‘‘mais comércio, menos ajuda’’ com um balanço supimpa: as vendas de produtos brasileiros para os Estados Unidos cresceram 32%. E as vendas de produtos americanos para o Brasil aumentaram 137%.
Esse par de números mais parece uma transfusão de sangue ao contrário: do pedestre atropelado para o motorista que o atropelou.




Secos & Molhados
Venham todos
- A proteção intermodal da indústria brasileira caiu de 86%, em 1983, para 32%, em 1990. Hoje, não passa de 12,7%, abaixo do tigre Coréia (17,8%) e do dragão Japão (17,3%). Sem contar aberturas adicionais para Manaus e montadoras.
Sem preparo
- Nada contra a abertura do mercado para uma economia até então excessivamente protegida e acomodada. O problema é que ela se fez sem preparação adequada. Ainda hoje não temos uma política industrial para a abertura comercial.
Falta vontade
- Sim, ainda não somos bons exportadores por nossa própria conta e risco. ‘‘Falta-nos vontade política no ‘front’ das exportações’’, diz Horácio Lafer Piva, presidente da Fiesp.
Caixão sem alça
- Desvalorização real de 50% da moeda nacional não foi suficiente para tirar a balança comercial do vermelho. Isso dá uma idéia do tamanho do Custo Brasil no ‘‘export-drive’’ verde-amarelo.

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