Joelmir Beting
A administração da economia brasileira tem apenas dois problemas: 1) quando as políticas fracassam; 2) quando as políticas funcionam.
Juliano Bastide, sociólogo
Deixem o PIB em paz
A exemplo dos economistas e consultores americanos, consultores e economistas brasileiros, exceção de 9,4% deles, ainda acreditam na rebrota ligeirinha da velha inflação de demanda. Eis a insônia maior da escola monetarista de Chicago, com sobras aqui para a Botocúndia, paraíso da clonagem acadêmica universal.
Na edição de segunda-feira, o Estado ouviu uma baciada de economistas e consultores e não deu outra: se a economia brasileira, ainda no desvio, voltar a crescer (até por instinto animal de sobrevivência), a inflação romperá a jaula de ferro da estabilização. Bastaria, segundo eles, um PIB de 4%, nesta próxima travessia de 2000, para levantar a crista da fera ainda desindexada.
Fala-se que a retomada da carestia, na garupa da retomada da economia, já se encontra devidamente amoitada na chamada inflação reprimida do setor industrial. Seguinte: as fábricas não conseguiram repassar para as lojas (nem estas para a freguesia) os custos encavalados do desarranjo cambial e do tarifaço trapalhão. Por uma simples e boa razão: a chantagem emocional da recessão.
Nenhuma palavra de elogio aos ganhos de produtividade das empresas, da indústria, do comércio e dos serviços de apoio. Nenhum toque sobre as mudanças de comportamento do consumidor mediano do real, finalmente informado, seletivo e exigente. E nenhuma referência aos choques de competição nos terminais do varejo. Cultura de briga importada das grandes redes americanas e européias, agora espalhadas entre nós. Tudo isso não existia cinco anos atrás.
Vale repetir pela 47ªvez nesta coluna: se recessão derrubasse inflação, Collor, o Demolidor, teria acabado com ela. Collor, Sarney e Figueiredo. A própria literatura econômica ainda não teria registrado o fenômeno da stagflation. Ou seja: mais recessão com mais inflação, em processo de causação circular cumulativa paroxística aguda, vulgo círculo vicioso. Já vimos esse filme de horror!
E mais: se expansão provocasse inflação, a cesta básica do Dieese, sob pressão de demanda desde julho de 1994, não teria sido, como até aqui, o bloco de preços menos inflacionado nesta meia década do Real. E o que dizer da gloriosa saca de cimento, ainda hoje sob regime de oligopólio?
O mercado dela quase dobrou de tamanho em cinco anos de Real, disparando de 24 milhões para 43 milhões de toneladas. Pois o preço dela subiu, no período, nada além de 7,4%, constata a Anamaco, que é do varejo do ramo.
Ora, sustentar que só a recessão segura a inflação é fazer o jogo do garrote monetário. Que tanto engorda o lucro do setor bancário.
Secos & Molhados
Não é assim?
- Recessão é quando a economia engata a ré, passando a produzir cada vez menos por pelo menos todo um semestre. Quando ela se limita a andar de lado, produzindo no presente tanto quanto no passado, temos a estagnação.
Escapamos?
- O Real ainda não trombou com a recessão em bloco. Ano passado, cresceu 0,4%. Este ano, o da catástrofe nacional anunciada, deve recuar 1%. Ou menos. Em cinco anos de Real, expansão acumulada de 17%.
E a âncora?
- Analistas preguiçosos venderam para todos nós que o sucesso do Real no front da carestia não passava do artifício da tal âncora cambial. Pois essa âncora acabou da noite para o dia e o Real, não. Agora, a mágica deles é a recessão.
Keynes ensina
- Quando a realidade econômica muda, minha convicção acadêmica também muda. Máxima keynesiana, sob o tampo de vidro de minha mesa de trabalho.





