Joelmir Beting
Mesmo com o dólar solto na praça, o cenário para este fim de ano será melhor (ou menos ruim) que o dos últimos dois anos.
Heron do Carmo, coordenador do IPC-Fipe.
Quanto vale o dólar?
O dólar não vale R$ 2. Nem R$ 1,90. O mercado sabe disso e acabará praticando a chamada taxa de equilíbrio quando sentir sob os pés as condições concretas e objetivas. Algo parecido, nesta altura do calendário, com R$ 1,85. Essa mesma taxa de equilíbrio foi de R$ 1,70 em abril.
Para a maioria dos analistas financeiros, estamos no purgatório de um segundo overshooting cambial, com dólar aboletado no muro de R$ 2. O primeiro deu-se com a ruptura da banda cambial em janeiro. A cotação da moeda americana, sem qualquer intervenção do Banco Central, chegou a emplacar até R$ 2,22 em fevereiro, ainda antes do carnaval da perplexidade nacional.
O primeiro overshooting foi explicado pelo choque da mudança e pelas projeções catastrofistas que foram feitas em nome dela. Esta segunda bolha que igualmente não se sustenta no tempo tem um arrazoado técnico que se resume em Adam Smith: procura maior que a oferta. Há toda uma concentração de remessas neste último trimestre do ano. O Banco Central está com as reservas abaixo de US$ 40 bilhões (menor volume desde março). Mas acaba de mostrar que ainda tem poder de intervenção no mercado. O piso das reservas, comprometido com o FMI, é de US$ 25,2 bilhões em outubro, US$ 25,6 bilhões em novembro e US$ 26,3 bilhões em dezembro. Haverá revisão dessas metas na próxima semana.
A emissão de títulos com correção cambial igualmente tem elástico para puxar se necessário. Eles passaram de 21%, em 31 de dezembro, para 26% da dívida pública até 31 de agosto. Cresceram algo mais em setembro. O mercado continua receptivo.
Nem só de pico de remessas vive a pressão sobre o câmbio. Pesa no ânimo do mercado a frustração da balança comercial. Projetava-se um superávit de até US$ 11 bilhões para este ano, a partir da desvalorização do real. Ficou no déficit de US$ 773 milhões, de janeiro a setembro. Nas exportações, ainda não saímos da praia.
A curva da inflação igualmente incomoda. Alguns analistas mostram onde mora o perigo: no consumo, a carestia ainda pode fechar o ano com taxa acumulada de 8%, agora apresentada como objetivo ótimo. No atacado ou na produção, todavia, a alta dos preços ensaia acumular 25%. Até quando o varejo resistirá ao repasse? Ou será que o Papai Noel deveria antecipar as compras?
Pelo sim, pelo não, o economista-chefe do Lloyds Bank, Odair Abate, admite que o dólar está valendo, nesta virada de novembro, cerca de 17% acima do que realmente vale ou pesa.
Secos & Molhados
Medo do Bug
- Sim, até o Bug do Milênio atiça a cotação do dólar. Teme-se por uma crise de liquidez em escala planetária a partir de novembro. Com direito a uma recessão transitória.
Só em janeiro
- Até por causa do Bug, o mercado avalia que a nova taxa de equilíbrio do câmbio só será alcançada em janeiro. Com promessa de ser mantida na travessia do primeiro semestre salvo as bruscas oscilações de praxe.
Luz no túnel
- Há que se encaixar no cenário para 2000 os efeitos benéficos do ajuste monetário já iniciado. Crédito bancário maior na oferta, mais longo no prazo e menos caro na taxa poderá levantar a crista do consumo, da produção, do emprego e do câmbio.
Sem amolação
- Fazer o crédito bancário funcionar depende de uma penada do governo e não de uma barganha do Congresso. Por que não se tentou isso antes?





