‘‘É legítimo proteger a produção nacional no mercado global. Mas é inaceitável quando esse recurso é confiscado de parceiros comerciais.’’
Marcos Sawaya Jank, pesquisador da Esalq-USP
Amigos da Rodada?
Que rodada? A assim chamada Rodada do Milênio pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Uma conferência de primeiro escalão dos 134 países que ostentam o crachá de membro da OMC. Essa rodada de negociações normalmente espinhosas tem data para começar (30 de novembro próximo), mas não para terminar. A Rodada Uruguai, que deu à luz a própria OMC, durou nove anos.
A nova conferência rosca sem-fim será lançada na cidade americana de Seattle, na Costa Oeste, junto ao Canadá. Cidade hoje mais conhecida como sede mundial da Boeing e da Microsoft. E onde chove quase todo santo dia. A tal ponto, que Mark Twain (1835-1910), escritor satírico, sapecou: ‘‘O inverno mais agradável que passei em minha vida foi um verão em Seattle.’’ Amigos da Rodada? Não é roda de chope nem de samba. É o rótulo dado aos 25 países escalados para escrever a Agenda da Rodada do Milênio.
Países mais empenhados, nos últimos anos, em tratar de assuntos ligados ao comércio mundial, em nome do vasto bloco ou na defesa de interesses próprios. A usinagem da Agenda foi tentada pelos 25, esta semana, na plácida cidade suíça de Lausanne.
Para variar, deu-se a recaída da Síndrome da Torre de Babel. Os 25 amigos, pero no mucho, não conseguiram sequer alinhavar a listagem dos assuntos que devem ser discutidos a partir da cúpula de Seattle. O sonho de um comércio mundial cada vez mais aberto (porém, pactuado) deve continuar engarrafado pelo protecionismo anacrônico dos países ricos, posseiros da economia global.
Uma Agenda da Rodada do Milênio teria de começar pelo desmanche progressivo das barreiras comerciais para os produtos agrícolas.
Barreiras mantidas a peso de ouro pelos países
industrializados. Nos cálculos da OCDE, na soma de subsídios para a produção interna (e de confiscos para a produção alheia importada), os 30 países mais desenvolvidos estão sustentando um protecionismo comercial da ordem de US$ 365 bilhões. Um bilhão por dia!
A União Européia lidera o protecionismo e não abre. Ela tira dos contribuintes europeus (e dos produtores estrangeiros) para dar aos produtores nacionais. O detalhe político: a população rural não passa de 1,9% da população total. Nos Estados Unidos, 3,8%. O eleitorado sabe disso? Sabe que paga pelo pão ou pelo leite metade do que o produto realmente custa. O governo banca a outra metade. Pera aí! O governo ou o contribuinte, que é o próprio consumidor, próprio eleitor? Afinal, o governo, qualquer governo, não tem para dar a ninguém um só centavo que não seja tirado de alguém.




Secos & Molhados
Brasil a bordo
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Representado pelo chanceler Luiz Felipe Lampreia, o Brasil integra os 25 Amigos da Rodada. Mais os 15 da União Européia, os Estados Unidos, Canadá, Japão, Rússia, México, Argentina, Austrália, Nova Zelândia e Coréia do Sul.
Quinquilharia
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A proposta européia para a Agenda foi apelidada de Árvore de Natal. Passa ao largo da questão agrícola e das barreiras comerciais e gasta munição em temas ambientais, em compras governamentais, em acordo sobre serviços etc. e tal.
Prioridades
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A proposta brasileira, referendada pelo bloco dos emergentes e pelo Canadá e Austrália, elege duas prioridades: 1) aceleração do desmanche de barreiras protecionistas; 2) armação de um severo tratado global contra o dumping.
Convescote
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Única certeza: sem a pauta agrícola na Agenda, a Rodada do Milênio não passará de um recorrente convescote diplomático a partir das neblinas de Seattle.

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