‘‘Um povo que precisa de um salvador não merece ser salvo.’’
Millôr Fernandes, jornalista e escritor
Reféns do câmbio fixo
Para os 37 milhões de argentinos, vale a máxima do príncipe de Lampedusa: as coisas precisam mudar para que permaneçam as mesmas. Outro não foi o discurso de campanha do presidente eleito Fernando de La Rúa, da oposição. Diz ele que vai manter o modelo econômico plantado há oito anos. Modelo chumbado ao câmbio fixo da conversibilidade unitária garantida em lei. Um peso vale um dólar.
Os argentinos não abrem mão dessa paridade cambial sem paralelo em países com alguma massa crítica na economia global. Mesmo sentindo na pele e no bolso que o câmbio fixo é arma de dois gumes: ele garante a estabilidade monetária, mas sabota o crescimento econômico. ‘‘Entre uma unidade a menos de inflação e uma unidade a mais de produção, os argentinos ficam com a primeira’’, escreve o economista Carmelo Sommer.
E a competitividade das empresas? A paridade cambial, ainda que bem fundamentada no campo financeiro e no terreno fiscal, dificulta as exportações. Ao mesmo tempo, estimula as importações. Para os consumidores argentinos, os produtos brasileiros ficaram, este ano, 60% mais baratos, em peso (ou em dólar). E os produtos argentinos ficaram 60% mais caros, em real, para os consumidores brasileiros. Ou como diz Ignácio Mendiguren, da União Industrial: ‘‘O que é bom para o Brasil deixou de ser bom para a Argentina.’’ Com conversibilidade garantida, o câmbio fixo promoveu a dolarização formal e quase integral da economia. Sem contar o ‘‘caixa 2’’ cambial de empresas e famílias, o dólar de curso legal responde hoje por 72% do meio circulante total, por 64% dos depósitos bancários, por 67% das dívidas privadas e por 82% das dívidas públicas. ‘‘Uma abertura cambial de padrão brasileiro levaria os argentinos a um haraquiri coletivo em praça pública’’, suspira o consultor Rosendo Fraga. Ele disse ao Estado, sábado: ‘‘Só poderemos abandonar a conversibilidade no momento em que não seja mais necessário sair dela.’’ E se houver um ataque externo contra o peso argentino? O provável futuro ministro da Economia, José Luis Machinea, descarta a hipótese e conta nos dedos: 1) a paridade fixa veio para ficar e atacar o peso seria tão quixotesco quanto atacar o dólar; 2) o mercado sabe que será mais fácil dolarizar tudo por decreto do que desvalorizar o peso; 3) os pesos em circulação estão lastreados em dólares; 4) as reservas cambiais continuam sólidas e os bancos idem; 5) o ajuste fiscal ainda por fazer nada tem de traumático. Amém, diria Menem.
O detalhe: a Argentina também está sob tutela do FMI. Que aprova o regime cambial introduzido em junho de 1991.




Secos & Molhados
Recessão
- A economia argentina ensaia fechar o ano com retração de 3%, pior desempenho em oito anos. Para o ano que vem, o presidente eleito já fala em crescimento de 4%.
Desemprego
- Pela metodologia parecida com a do IBGE, o governo argentino apurou, em setembro, um desemprego de 14,5% (contra menos de 8% no Brasil). Se o PIB crescer 4% em 2000, a taxa de desocupação baixaria para 13,1%. Ainda um horror.
O que fazer?
- Sem mexer no câmbio, o novo governo espera reduzir o desemprego com crédito barato às médias e pequenas empresas, com simplificação do regime tributário e com flexibilização da legislação trabalhista.
E o Mercosul?
- ‘‘Sou Mercosul desde criancinha’’, teria dito Fernando de La Rúa. Ele sustenta que os atuais atritos com o Brasil resultam da ‘‘incompetência dos negociadores argentinos’’.

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