‘‘Quando o mercado funciona mal é porque ele está precisando de mais mercado.’’
Robert Lucas, Prêmio Nobel de Economia (1995)
Ele viu mais longe
NOVA YORK – As aulas de Robert Mundell, professor de Teoria Monetária da Universidade de Colúmbia, estão mais concorridas que nunca. Elas tiveram de ser transferidas para um auditório maior e passaram a contar com a freqüência também de jornalistas, infiltrados entre os estudantes. O canadense Robert Mundell ganhou, no dia 13, o Prêmio Nobel de Economia de 1999.
Conheci o professor Mundell em maio de 1971, na Universidade de Chicago. Fui apresentado a ele por dois jovens acadêmicos brasileiros, então fazendo doutorado naquela escola: o paulistano Eduardo Suplicy, hoje senador pelo PT, e o amazonense Adroaldo Moura da Silva.
Naquela época, Robert Mundell destacava-se como conferencista muito requisitado e como autor de livros polêmicos de sucesso. Foi nessa mesma ocasião que ele profetizou a globalização do mercado financeiro – que só ocorreria duas décadas mais tarde. Globalização feita, necessariamente, de desregulamentação dos mercados nacionais. E com direito a uma indisciplina cambial que produziria, mais à frente, de crise em crise, a construção de um sistema monetário internacional digno do nome.
Em maio de 1971, havia grande nervosismo no mercado financeiro. A crise da libra inglesa, em 1967, ainda fazia estragos nos dois lados do Atlântico Norte. A coisa chegou a tal ponto que, três meses depois, o presidente Nixon, na calada da noite, acabou com o lastro-ouro do dólar americano, moeda de reserva do FMI, criado em 1944 na Conferência de Bretton Woods.
O Nixon Shock quase matou Charles De Gaulle de apoplexia. Seu ministro de Finanças, Jacques Rueff, saiu pelo Mercado Comum Europeu vendendo a idéia de uma paridade cambial na Europa Ocidental. Foi assim que nasceu a serpente monetária européia, autêntico vestibular para a moeda única de hoje, o euro, lançada em janeiro.
Sim, ainda antes do Nixon Shock, Robert Mundell havia me dito na entrevista de maio que o FMI não tinha mais autoridade alguma sobre políticas cambiais e monetárias. O Fundo já mal passava, então, de mero auditor de confiança dos bancos e governos credores nas contas e nos planos dos governos devedores. Com a sentença: ou o mundo cria um legítimo banco central dos bancos centrais ou terá, ainda neste século, graves turbulências financeiras e cambiais.




Secos & Molhados
Guru do Euro
- Na declaração de outorga do Prêmio Nobel de Economia deste ano, a Academia Real de Ciências da Suécia aponta Robert Mundell como o principal ideólogo do euro, moeda única de 11 países europeus.
Um refúgio
- Para Mundell, mercados comuns (de blocos de países) devem construir a moeda única. Um refúgio sob medida para a fuzarca cambial que hoje confunde e amarra a economia real.
Falta pouco
- Mundell retoma a pregação de 1971 e recomenda a convocação de uma nova Bretton Woods para 2001/2002. Diz ele: ‘‘Haverá logo mais disciplina global para produtos e serviços (OMC). E por que não para as moedas (FMI)?’’
Sem farra
- A globalização financeira selvagem acabou com a impunidade de políticas fiscais permissivas, segundo Mundell. País sem disciplina fiscal é o alvo favorito dos ataques da neura global.

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