‘‘Ele adora controlar o mercado só com palavras. É a primeira vez que isso ocorre em dois séculos de bolsa. Parabéns, Mr. Greenspan.’’
Christine Callies, analista-chefe do Credit Suisse First Boston.

Big Bull & BugNOVA YORK – Ouvido ontem nos bares de Wall Street: o onisciente Alan Greenspan ainda não sabe se eleva os juros para resfriar as bolsas, amainar o consumo e espancar a inflação ou se mantém os juros e solta o crédito para evitar um colapso de liquidez (com recessão) na vigília do bug a partir de novembro.
O longo ciclo da opulência econômica, nesta década, enche o balão de gás (ou bola de bexiga?) do mercado de ações, representado pelo búfalo (bull) de bronze, em tamanho natural, ao lado da Bolsa de Valores de Nova York (Nyse). E o bug do milênio ou bug do ano 2000 (2YK) é a pane em computadores e equipamentos chipados, ainda com campos de data de dois dígitos. Neste próximo réveillon, eles traduziriam a passagem de 99 para 00 por 1900 e não por 2000. Um erro, pane, falha ou grilo (bug) de um século. Um Doomsday!
Na aposta da alta dos juros entrou com a pilha toda, sexta-feira, a divulgação da inflação de setembro. Contava-se com 0,50% e deu 1,10%. No mesmo dia, Alan Greenspan, o pit-bull do Fed, banco central americano, religou o dedo em riste na cara da ‘‘irrational exuberance’’ do mercado de ações. E fez isso exatamente onde a onça (ou o bull) bebe água: durante almoço na Nyse.
Resumo do discurso: maior o valor, maior o risco; e, maior o risco, maior o tombo. Nada de novo na frente ocidental. Desde junho de 1977 que Alan Greenspan mantém acesa a ansiedade do mercado. Que continua em alta, de reunião em reunião dos juros do Fed. A próxima é em 16 de novembro, com outra mais em 21 de dezembro. Trégua, só no Natal. Ou após o bug.
Para o consultor de investimentos Robert Schlesinger, Alan Greenspan deixa o mercado ansioso por que ele mesmo se revela confuso em dois pontos cruciais: 1) há ou não há uma bolha de euforia nas bolsas e até quando a sobrevalorização das ações seria sustentável? 2) há ou não há uma bolha de euforia na própria economia americana, com oito anos corridos de prosperidade econômica com estabilidade monetária?
Sobre o primeiro ponto, Alan Greenspan jamais ousaria falar em sobrevalorização do Dow Jones em 25% a 30%, como juram analistas do ramo. Afinal, ‘‘as razões do mercado são exatamente como as razões do coração, todas acima das forças da razão’’, filosofa Abby Joseph-Cohen, estrategista de investimentos da Goldman Sachs.



Nova economia
- Sobre o segundo ponto, Alan Greenspan reprisou no discurso de sexta-feira que o milagre americano dos anos 90 tem muito a ver com os ganhos de eficiência e produtividade das empresas. Por obra e graça da explosão das novas tecnologias da informação.
Sem mistério
- A digitalização do sistema moderniza empresas e governos, melhora produtos e serviços, rebaixa custos e preços e levanta lucros e ações. Isso é falso, é irracional, é bolha?
Sem cartilha
- O monetarismo enrustido do Fed não sabe explicar o vexame da cartilha: desemprego abaixo de 6% desencadeia inflação acima de 6%. O primeiro está há dois anos abaixo de 4,5% e a segunda mal passa de 2,5%.
Em resumo
- Robert Schlesinger encerra o assunto: ‘‘Não é a política monetária que segura os preços da nova economia. Está na hora de deixar os juros e as ações em paz.’’

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