‘‘No Brasil de hoje, até os canarinhos desafinam.’’
João Gilberto, compositor e cantor
Pronto para decolar
Peritos de meio mundo, reunidos no Rio de Janeiro, deixaram bem claro que o Brasil tem o tijolo e o cimento na mão para despertar o gigante ainda deitado estupidamente em berço esplêndido: a construção financiada de 1 milhão de moradias por ano. Governo e mercado estão financiando menos de um décimo disso.
Um moderno programa de crédito habitacional, copiado de americanos e europeus, já está devidamente regulamentado e implementado: o Sistema Financeiro Imobiliário (SFI). Implementado? Bem, ainda aguarda o sinal verde de uma taxa real de juros de 10% ao ano. Ele tem potencial para financiar 1 milhão de moradias de classe média. Mas deve fechar este primeiro ano de operação com contratos de no máximo R$ 140 milhões.
No 23º Congresso Mundial de Financiamento Habitacional, encerrado ontem, no Rio Sheraton, especialistas estrangeiros discutiram e aprovaram o formato do SFI verde-amarelo. O ex-ministro de Finanças da Alemanha Theo Waigel disse que o programa habitacional brasileiro não tem outra saída que não a da adoção do chamado mercado secundário de recebíveis imobiliários, viga mestra do SFI. Um financiamento lastreado em hipotecas e créditos securitizados.
Que bicho é esse? O brasileiro Luiz Pinto Lima, que preside a International Union for Housing Finance, promotora do evento no Rio, explica: ‘‘Os créditos habitacionais, escorados por hipotecas, são primeiro vendidos no mercado financeiro a investidores institucionais e, em seguida, garantidos por uma companhia de securitização. Isso recicla imediatamente o recurso, dando inteira liquidez ao sistema. Ativos hipotecários, assim lastreados, têm aceitação internacional.’’
Já temos uma Companhia Brasileira de Securitização (Cibrasec), formada por 33 bancos privados, mais a Caixa Federal, o Banco do Brasil e o Banespa. O presidente da Cibrasec, Anésio Abdalla, disse ontem que o SFI poderia realizar financiamentos de R$ 60 bilhões em dez anos. Mais que os R$ 52 bilhões acumulados pelo Sistema Financeiro Habitacional (SFH) nos últimos 33 anos.
Claro, se a política monetária curar-se da anorexia econômica que já dura quase duas décadas. Ou como diz Luiz Pinto Lima: ‘‘Soltar as amarras do crédito imobiliário não queima divisas nem atiça os preços. O que provoca inflação não é a construção de moradias, mas a falta delas. Além de reduzir o déficit habitacional, o SFI pode aumentar a oferta de emprego.’’ O lembrete é do consultor Antoninho Marmo Trevisan: ‘‘Quando em movimento, o chamado ’pode acionar diretamente quase um quinto do PIB. Já está mais que na hora de apostar nisso.’’



Paradigma
- Nos Estados Unidos, o mercado de hipotecas imobiliárias movimenta por ano 7% do PIB. O estoque de contratos em vigor acaba de superar a barreira telúrica de US$ 3 trilhões.
Para todos
- No Brasil, a classe média terá, com o SFI, a possibilidade de encarar planos de até 30 anos. Nesse prazo, as prestações ficarão bem abaixo dos aluguéis. Claro, prazos maiores com juros menores.
Ainda caro
- Além de curto na oferta e no prazo, o crédito imobiliário cobra juros de 12% a 14% ao ano. No Chile, 10%. Nos Estados Unidos, a taxa média é de 7,5% ao ano para planos de até 40 anos. Na União Européia, a taxa é de 6%.
Baixa renda
- Com o FGTS, a Caixa Federal financia compra, reforma, ampliação e também materiais de construção para famílias de até 12 salários mínimos. Com juros de 10,5% e prazos de até 25 anos para as moradias e de 12% e 36 meses para os materiais.

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