‘‘Você não pode discutir a competência do banqueiro nem do anestesista. Você apenas deve confiar neles.’’
Diane von Fursten, decoradora americana

Jogando pela pontaApoiado em estudos da Fundação Getúlio Vargas e em cálculos do corpo técnico, o Banco Central deve anunciar, amanhã, novas medidas para a redução dos juros na ponta dos empréstimos bancários – por onde transita a economia real de quem investe, produz, poupa, emprega, trabalha e consome. Essa distensão monetária, com aviso prévio, joga com redução de juros, ampliação de créditos e alongamento de prazos. Com ou sem a redução da Selic, hoje.
Não se trata de uma ‘‘farra de crédito’’ de padrão asiático. O crédito bancário para o setor produtivo não passava, em julho, de 28,5% do PIB. Na Alemanha, a adubação financeira da economia equivale a 122% do PIB. E, nos emergentes da Ásia, a coisa chegou até 140% do PIB – antes do ‘‘crash’’ em bloco de 1997.
A economia brasileira – que não tem alternativa no capital do sócio para a estiagem do crédito em banco – só voltará a crescer pela média histórica de 1950/1980 se voltar a desfrutar de empréstimos bancários da ordem de 60% do PIB. Crescimento médio de 7% ao ano, taxa-piso para a redução do desemprego.
O afrouxamento do garrote monetário – veneno disfarçado de remédio – é um expediente tranquilo. Basta passar a faca nas gorduras obscenas dos recolhimentos compulsórios e da cunha fiscal amoitada na taxa final. A lipoaspiração começou pelos compulsórios e vai prosseguir por aí. A retenção bancária dos depósitos à vista recuou de 75% para 65% e pode contentar-se com 55% a partir de amanhã. Nos Estados Unidos, onde a massa de crédito aproxima-se de 90% do PIB, os compulsórios não passam de 10%. Na Alemanha, 2%.
A ampliação da liquidez bancária deve ser feita em suaves golfadas do tipo agosto/outubro/dezembro/fevereiro. Ela pode dar carona, amanhã, à redução também dos chamados direcionamentos bancários - linhas de crédito vinculadas a setores já saciados. Enredados por recolhimentos e direcionamentos, os bancos só podem emprestar ao setor privado, livremente, nada além de 17% dos recursos. Eles se obrigam, com isso, a ganhar mais sobre menos.
Outras medidas de amaciamento do crédito: 1) redução da cunha fiscal abusiva; 2) ampliação das garantias bancárias. A ordem é baixar a taxa de risco do sistema. O que significa aliviar a barra do mutuário honesto, que hoje paga a conta do calote alheio. Haverá novo modelo (simplificado) de cadastro da clientela e novo esquema (fortalecido) de cobrança judicial. Isso melhora a qualidade do crédito, enxuga as provisões de cobertura e, fechando a roda, reduz a taxa de risco (ou de juro) dos empréstimos.



Cunha fiscal
- A taxa do mutuário paga meia dúzia de tributos cruzados (incluídos os do poupador). Empréstimo de 5% ao mês esconde cunha fiscal (ou gula fiscal) de 56% da taxa final. Fonte: Integral Trust.
Fundo de Aval
- Micros e pequenas empresas ganharam, ontem, um Fundo de Aval. Ele reduz as garantias exigidas dos mutuários, sem aumentar os riscos dos bancos. Tais garantias estão deixando R$ 7,5 bilhões encalhados no sistema.
Estatuto azul
- Na estréia do Estatuto da Micro e Pequena Empresa, ontem, o governo também reduziu juros, amaciou a cunha fiscal nos créditos do segmento e refinanciou dívidas dessas empresas com órgãos federais.
Dois pacotes
- Com o pacote de ontem, o governo reaquece as micros e pequenas empresas. Com o pacote de amanhã, alivia o garrote monetário também para médias e grandes empresas. Uma aposta na criação de 3 milhões de empregos no ano que vem. Amém.

mockup