Joelmir Beting
A maioria dos analistas financeiros está distanciada da economia real. São engenheiros de pontes que desabam e pouca gente percebe isso.
William Ury, antropólogo americano
Mercado neuróticoO mundo quase todo, o Brasil no meio, prende a respiração. Hoje, o banco central americano, o Fed, decide se mexe ou não na taxa básica de juros. Para o alto? Depois de amanhã, o Banco Central Europeu (BCE) toma decisão semelhante. Com o recado: para o alto. Amanhã, entre o rochedo e a ressaca, o marisco Banco Central do Brasil também coloca a taxa básica na mesa. Para baixo?
Esse ritual da autoridade monetária é tido como tecnicamente correto e politicamente charmoso. Revela que o governo ainda apita mais forte que o tal de mercado, frango doido em campo aberto. E indica que a intervenção no sistema financeiro é um jogo disciplinado e transparente, sobre ser necessário. Intervenção pavimentada ou por viés de baixa ou por viés de alta ou, ainda, por viés neutro.
Os burocratas do ramo dizem que esse exercício de transparência sobre matéria assim tão melindrosa contribui para melhorar a avaliação de riscos pelos agentes econômicos. Sobretudo, democratiza a informação em um mercado neurotizado por vocação e onde a alma do negócio não é saber tudo, mas saber primeiro...
Ou será que não? Esse negócio de mexer em taxa de juros é como mexer em taxa de câmbio: não deveria passar aviso prévio. Tanto mais com data marcada. É o que dizem empresários da economia real. Eles sustentam que essa transparência, inventada pelos americanos, engrandece a burocracia, mas desestabiliza a economia. Ela aumenta o nervosismo dos mercados, amplia o grau de incerteza das empresas e provoca a postergação de negócios. E, sobretudo, dramatiza ao ridículo indicadores econômicos de rotina.
Semana passada, por exemplo, as bolsas caíram no mundo porque se revelou em Washington que as vendas no varejo, em agosto, cresceram 1,9%, contra uma expectativa de 1,6%. Boa notícia? Negativo. Pode significar uma puxada punitiva dos juros na reunião do Fed. E, para onde os juros vão, as ações não vão atrás. Informou- se ainda que o salário real dos americanos subiu 0,5% em agosto. Boa notícia? Nem pensar. As bolsas caíram de novo porque isso significa que o consumo continuará aquecido, ventando nas brasas da inflação futura, pavor do Fed.
Pois esse tipo de cartomancia recheada de álgebra, produzida pelos analistas financeiros de Wall Street e turbinada pelas carrancas de Alan Greenspan, o Mister Fed, já dura sete anos corridos. E a inflação de demanda continua na jaula de aço-carbono. Jaula usinada pela competição, pela modernização, pela importação. O arrocho monetário, inútil e desagradável, nada tem a ver com isso.
Boas ou más?
- Indicadores de prosperidade nacional tiram o sono de monetaristas enrustidos, com síndrome de anorexia econômica. As boas notícias são as más notícias para um mercado financeiro emocionalmente infantilizado.
Para cima
- Crescimento sustentado da economia, com quase pleno emprego e salário real ainda em alta, aponta para nova elevação dos juros do Fed nesta terça-feira. Certo?
E a balança?
- A balança comercial dos Estados Unidos registra, desde maio, déficit recorde de US$ 1 bilhão por dia útil. Esse déficit, mais que os juros punitivos, ajuda a manter a inflação na jaula.
Linhas tortas
- Escrevendo certo por linhas tortas, interessa ao Fed elevar os juros para revalorizar o dólar. Dólar mais forte torna o produto importado ainda mais barato. Reduz a exportação e desacelera a economia. O balanço de pagamentos aguenta.





