Joelmir Beting
O subdesenvolvimento não se improvisa. O subdesenvolvimento é obra de séculos.
Nelson Rodrigues (1912-1980), jornalista e escritor.
A cor do disco-voadorDe repente, o FMI veste a camisa dos descamisados e proclama, em relatório solene, que a globalização é desumana. Na mesma tecla, o Banco Mundial, também em relatório anual, sustenta que o neoliberalismo está enriquecendo os países ricos a partir do empobrecimento ainda maior dos países pobres. De pleno acordo, proclama o relatório paralelo da Unctad, instituição da ONU que dá plantão nos estudos do (sub)desenvolvimento das nações.
Leitura desatenta dos três documentos (que somam algo equivalente a um livro de 1.270 páginas) produziu manchetes estrepitosas em todos os idiomas na semana passada. Culpa-se o tal de modelo neoliberal por todos os males do mundo nesta virada do milênio: miséria, violência, exclusão. O dedo em riste é a queda em bloco dos emergentes em 1998. Esses países derraparam na mancha de óleo do crash financeiro da tigrada asiática. Um acidente de percurso. Com a ressalva da própria Unctad: na década, o bloco da afluência melhorou de posição relativa no PIB global de US$ 21 trilhões.
Comparativos do Banco Mundial e do FMI demonstram que o aumento da pobreza e da desigualdade deu-se exatamente nos países que não embarcaram no bonde das reformas neoliberais (apresentados em ambos os relatórios na categoria de barrados no baile da globalização). Caso de dezenas de países da África Negra, do Oriente Médio, do Leste Europeu, da Ásia e do Caribe. Países ainda não alcançados pelos desafios do processo de globalização e muito menos pelas reformas de corte neoliberal.
Em resumo: o empobrecimento ainda maior daqueles países é resultante, não da globalização ou do neoliberalismo, mas justamente da falta de globalização e de neoliberalismo. Não é um novo produto do avanço da economia de mercado, mas um velho tributo da falência da economia de comando. Sem sofisma. Que o diga a implosão do Império Soviético, o urso que virou bode. Ele veio abaixo sem levar um tiro, um manifesto, uma passeata, uma rebelião, uma greve geral. Morreu envenenado pela própria saliva.
A derrocada do maior sistema de poder da História só causou surpresa aos marxistas dogmáticos. Eles passaram 80 anos discutindo as contradições naturais do capitalismo, fazendo vistas grossas e mentes idem para as contradições letais do socialismo (rótulo charmoso para o capitalismo de Estado sob opressão militar). O novo esporte intelectual deles é, agora, discutir as contradições do modelo neoliberal. Que nada tem de modelo e bem pouco de liberal. Eis a questão. O socialismo é um projeto. O capitalismo é um processo.
Inclusão
- Entenda-se por globalização a abertura de mercados nacionais a golpes de competição e modernização. Empresas passam a realizar produtos e serviços cada vez melhores a custos e preços menores. Inclusão de mercados, hoje, e de empregos, amanhã.
Exclusão
- Economias fechadas, supostamente protegidas, capricham em gerar empregos ruins com salários péssimos. Eis o DNA do subdesenvolvimento econômico e da exclusão social.
Inclusão
- Entenda-se por neoliberalismo a reestruturação do setor público e a modernização do setor privado. Com valorização máxima do capital humano no processo econômico. E valorizar o capital humano, da escola ao trabalho, é inclusão. Com meio século de atraso.
Exclusão
- O neoliberalismo acaba com a impunidade fiscal de governos perdulários e pusilânimes. A exclusão social maior está na degradação (pelo Estado e não pelo mercado) da saúde pública, da educação pública, da previdência pública, da segurança pública.





