Joelmir Beting
Infelizmente, não estou assinando uma certidão de nascimento. E, sim, um atestado de óbito.
John Maynard Keynes (1883-1946), na ata de fundação do FMI (1944)
Nova Bretton Woods?
Os 183 países que integram o condomínio global do FMI estão queimando mais uma assembléia anual, em Washington, sem avançar na carpintaria de uma nova ordem monetária internacional. O que não tem faltado é exposição de motivos: crise financeira intermitente, agora que o resfriado de um Equador ou de uma Malásia espalha gripe cambial pelo mundo inteiro. Contágio em tempo real, a dano do sono, da saúde e do emprego de 6 bilhões de terráqueos inermes.
A reforma do sistema monetário internacional, sob o guarda-chuva furado do FMI, é um projeto que faz circulos nágua desde setembro de 1973, na assembléia anual de Nairóbi, no Quênia. Projeto engavetado no mês seguinte, estouro do primeiro oil shock da Opep. Em cinco anos, a liquidez mundial concentrou-se em uma dezena de produtores de petróleo.
A reciclagem dos petrodólares se fez em ondas especulativas nos dois lados do Atlântico Norte.
Resultado: no contrapé, o Primeiro Mundo resvalou para o primeiro (e único) ciclo de estagflação do século. Em 1979, a economia americana purgou recessão de 4%, com inflação de 14%. O duplo choque dos barris, em 1973/74 e 1979/80, detonou a explosão dos juros. A prime e a libor voaram de 6% para até 21% ao ano. Aquilo, sim, é que foi crise global.
Ela produziu a década perdida dos anos 80, empurrando 34 países para a moratória. Brasil no meio.
A eclosão da debt crisis (antes da globalização e do neoliberalismo) não foi suficiente para dramatizar a urgência de uma nova Bretton Woods. Nestes últimos quatro anos, a fieira de crashes sucessivos no México, na Ásia, na Rússia e no Brasil reabriu a discussão inconsequente de um controle do capital volátil. Não se encara um novo projeto de reforma do sistema, agora que o câmbio das nações já virou a maior ficção econômica de todos os tempos.
Que reforma? Taxar o capital volátil, como propõe James Tobin?
Estabelecer quarentena chilena para o smart money sem bandeira? Única certeza: taxação ou quarentena, o controle só terá algum sucesso se for praticado, ao mesmo tempo, sem exceção, por todos os 183 condôminos do FMI.
O desenho de Nairóbi, de 1973, merece ser ressuscitado. Ele apontava para uma banda cambial planetária, sob o manto arbitral de um FMI reformulado, com poderes de um autêntico banco central dos bancos centrais (na linha do bankor de lord Keynes, proposta derrotada, em julho de 1944, em Bretton Woods). Sem essa disciplina monetária transnacional, o rabo da especulação cambial continuará abanando o cachorro da economia global.





