‘‘Outubro é um mês perigoso para as bolsas. Outros meses perigosos são agosto, dezembro, julho, fevereiro, abril, novembro, janeiro, maio, março, junho e setembro.’’
Mark Twain (1835-1910), escritor americano
Síndrome da bolhaO rabo não pode continuar abanando o cachorro. O rabo do mercado financeiro, cada vez mais neurótico, teima em submeter o cachorro da economia real a um estado de sobressalto permanente. Na semana passada, por exemplo, Wall Street viveu a pior semana do ano, com desvalorização média de 5% para um ativo total, em poder do mercado, da ordem telúrica de US$ 9,4 trilhões, na soma dos títulos das empresas negociadas na Nyse e na Nasdaq.
Essa queda em bloco, puxada pelas ações de tecnologia, as mais valorizadas da Nova Economia, teve a ver com duas notícias: 1) o governo americano anunciou que o déficit comercial de agosto saira maior que o esperado; 2) o governo americano, no dia seguinte, revelou que o desemprego em agosto ficara menor que o previsto...
Como se vê, a neura do mercado é de tal ordem que o noticiário econômico made in USA capricha em gerar simultaneamente duas notícias: uma boa, outra má. A boa notícia: a economia americana vai bem. A má notícia: a economia americana vai bem.
Se esse estado de coisas afetasse tão-somente a ‘‘irrational exuberance’’ de Wall Strett, tudo bem. Afinal, não tem cabimento na Economia do Conhecimento uma empresa de ponta valer no mercado de ações até 57 vezes o respectivo patrimônio líquido. Eis a média de valorização em bolsa, nesta década, das 100 maiores empresas plugadas nas tecnologias da informação (Standard & Poor’s 500). O problema é que o mundo inteiro, Brasil no meio, tornou-se refém do ‘‘stop-and-go’’ do Índice Dow Jones e, por tabela, da política monetária de intervenção do Fed, banco central americano.
Eis que se instala, em Washington, a assembléia anual conjunta do FMI e do Banco Mundial (Bird). Em relatórios solenes e em discursos recorrentes, FMI e Bird fazem eco aos temores do Fed. Michel Camdessus (FMI) e James Wolfensohn (Bird) reprisaram ontem as reiteradas advertências de Alan Greenspan (Fed).
Pela ordem: 1) a ‘‘irrational exuberance’’ de Wall Street é uma bomba-relógio de dez megatons com contagem regressiva perto de zero; 2) se não houver um ajuste técnico cauteloso e progressivo (para baixo), ocorrerá fatalmente o estouro dessa bolha especulativa; 3) a correção de choque dos ativos de US$ 9,4 trilhões (outros US$ 3,7 trilhões pululam pelas bordas do mercado de capitais) produziria um colapso em 1999 bem maior que o colapso de 1929.
Eis a ameaça que paira sobre o patrimônio de dois terços da população americana. Um ‘‘crash’’ que daria a volta ao mundo em um segundo, abalando países ricos, pobres, emergentes e submergentes.



Ou será que não?
- Estudo da Merrill Lynch mostra que a sobrevalorização das ações reflete a longa prosperidade econômica com estabilidade monetária. A melhor década do século para as empresas americanas.
Ainda crescendo
- O mesmo estudo informa que o lucro médio real das 500 maiores empresas deve fechar o ano com crescimento médio de 14%, prometendo mais 8% no ano que vem. Lucro apurado na economia real de produtos e serviços.
Sem selvageria
- E mais: lucro corporativo que não se faz a dano do trabalhador nem do consumidor. Ao contrário. O regime de trabalho é quase de pleno emprego, com aumento do salário real. E a inflação permanece em 2%, com surtos de deflação.
Nova economia
- Yes, há que se refazer a metodologia dos índices do PIB e da inflação. Ambos não estão capturando os ganhos de qualidade do sistema. As bolsas estão.

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