‘‘O candidato da oposição é a única garantia de estabilização da economia argentina e de reafirmação do tratado do Mercosul.’’
Rosendo Fraga, analista político argentino.
Culpa do Real? Ou da urna?
Brasil e Argentina continuam dando trombadas comerciais na ponte pênsil do Mercosul ainda em obras. Com a desvalorização do real em torno de 60% em relação ao ‘‘dólar platino’’ da paridade fixa, a Casa Rosada de susto vem se queixando, desde janeiro, de uma ‘‘invasão de produtos brasileiros no mercado argentino e do sumiço de produtos argentinos no mercado brasileiro’’. Exposição de motivos sob medida para a adoção de barreiras protecionistas contra o ‘‘hecho en Brasil’’. Certo?
Errado. Não houve invasão alguma. Bem ao contrário. Até agosto, cotejado com o mesmo período do ano passado, deu-se uma redução de 26% nas exportações brasileiras. Isso quase neutralizou o corte das importações, da ordem de 32%. O resultado é que, nas trocas com o Brasil, a Argentina continua nadando em superávit: US$ 412 bilhões até agosto. Qual é o problema?
Nada a ver com o ‘‘dólar platino’’ perto de R$ 1,90. O verdadeiro enguiço é o populismo eleitoreiro, praga universal. O governo argentino, pisando no mesmo terreno minado do governo brasileiro, está com a popularidade em queda livre. Lá como cá, culpa da recessão e do desemprego. Este, de 14%. Simplesmente o dobro do nosso, medido pelo IBGE. Em ano de sucessão presidencial, recessão e desemprego atribuídos à tal de ‘‘invasão brasileira’’ pós- desvalorização do real. E tome medidas de proteção comercial que violam os tratados do Mercosul. Com direito a medidas retaliatórias já anunciadas pelo Brasil.
Um contencioso inútil, sobre ser desagradável: o presidente Carlos Menem não fará o sucessor nas urnas do mês que vem. O candidato oficial, o peronista Eduardo Duhalde, governador da província de Buenos Aires, acabou atropelado nas últimas pesquisas eleitorais pelo principal candidato oposicionista, o advogado Fernando de la Rúa, prefeito da cidade de Buenos Aires. Este já superou os 45% das intenções de voto, piso para liquidar a fatura já no primeiro turno.
Aquele passou a patinar nos 30%, estoque mínimo de qualquer candidato do peronismo. O ‘‘pai’’ da conversibilidade, o ex- ministro Domingo Cavalo, em terceiro, não tem passado de 8%.
A última de Eduardo Duhalde, que havia prometido pedir perdão da dívida externa, com a ajuda do papa João Paulo II: ‘‘Defenda seu emprego. Não compre produtos brasileiros. Compre produtos argentinos.’’ Resposta de Fernando de la Rúa: ‘‘Mui estranho. O chefe da propaganda eleitoral de Duhalde é o publicitário Duda Mendonça, por ele mesmo importado do Brasil...’’



Concertación
- Eduardo Duhalde tenta virar o jogo chutando as canelas do ajuste fiscal, fiador da estabilidade monetária: redução de impostos para reativar o emprego. Duda Mendonça rotulou a promessa de Plano Concertación.
Apoio geral
- Pesquisa com empresários e executivos argentinos aponta 77% das intenções de voto para Fernando de la Rúa. Que volta a reafirmar seu compromisso com a paridade cambial: sem desvalorização nem dolarização.
Pelo bloco
- Pela oposição, o futuro ministro da Economia já tem nome: José Luis Machinea. Ele defende o Mercosul e propõe um acordo prévio sobre subsídios fiscais a regiões menos desenvolvidas.
Sobre o muro
- O presidente Carlos Menem sonega apoio ostensivo a Eduardo Duhalde. Ele acredita que terá chance de voltar à presidência nas eleições de 2003 – se correr pela raia da oposição.

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