Joelmir Beting
Creio na existência de anjos da guarda. Mas penso que eles nada podem fazer por nós sem que nada façamos por eles.
Gabriel Garcia Marquez, escritor colombiano
O grande testeO Banco Central realiza hoje, das 8h30 às 16h30, o teste conclusivo da adequação do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) ao bug do milênio. Por esse sistema em rede transitam, por dia, nada menos de R$ 130 bilhões em títulos públicos. Do grande ensaio neste sábado devem participar as 254 instituições financeiras plugadas no sistema Selic.
O teste consiste na simulação de leilões de títulos públicos. As instituições simulam propostas e bancos e corretoras simulam todas as operações da negociação de rotina. É bom lembrar que o sistema Selic hospeda bilhões em títulos com vencimento para além do ano 2000. E o bug não se esgota na virada de 99 para 00 do próximo réveillon. Há outras datas com grilos digitais até julho de 2001. Caso de 29 de fevereiro de 2000. Computadores e equipamentos chipados, sem adequação, não devem registrar o ano bissexto de 2000 e vão rodar direto de 28 de fevereiro para 1 de março.
O Banco Central já realizou cinco testes este ano e já programou mais dois ainda para setembro: o do sistema de câmbio e o do mercado interbancário. Bancos ou corretoras que não participarem dos testes em rede receberão a visita de inspeção de técnicos do Bacen. Marcação sob pressão na saída da bola.
Tripulados pela Febraban, os bancos comerciais já testaram, com sucesso, a adequação de 184 bancos (total de 19.468 agências) ao sistema de compensação bancária. Sem bug. Até meados de outubro serão checadas as operações bancárias com bolsas de valores, com a Central de Liquidação e Custória de Títulos Privados (Cetip) e com o pagamento de benefícios do INSS.
Uma campanha de esclarecimento sobre ações e planos dos bancos em relação ao bug será lançada pela Febraban em dezembro. Essa comunicação, em peças para jornais, revistas e televisão, é tida politicamente necessária, ainda que tecnicamente melindrosa. Dependendo do enfoque e do conteúdo da campanha, a população pode ficar mais alarmada que esclarecida. A preocupação do Bacen e da Febraban é a mesma manifestada publicamente por Alan Greenspan, esta semana, em relação aos Estados Unidos: o medo de uma corrida aos bancos antes do Natal.
Pelo sim, pelo não, bancos americanos e europeus já avisaram que vão reduzir suas operações de crédito em até 70% a partir da segunda quinzena de novembro. Eles fazem a opção pelo máximo de ativos com o mínimo de riscos até a segunda semana de janeiro. Ou seja: uma crise de liquidez global na virada do milênio.
Teste global
- Bancos brasileiros participaram, em junho, do teste conjunto do bug com 538 bancos estrangeiros estabelecidos em Nova York. Iniciativa da Câmara de Compensação Internacional, com sede em Wall Street.
Banco do Brasil
- O banco gastou R$ 65 mihões na adequação de 107 mil programas. E prometeu cobrir perdas da clientela por eventuais danos ligados ao bug. Promessa já protocolada na rede nacional de Procons.
Banespa
- Entre outros planos de contingência, o privatizável Banespa decidiu encaminhar por escrito aos correntistas os extratos de suas posições em 30 de dezembro. E vai gerar arquivos backup para consultas em janeiro.
Para todos
- A Microsoft anunciou quinta-feira que vai soltar em novembro, por e-mail e CD-ROM, perto de 70 milhões de cartilhas digitais sobre o bug. Em 12 idiomas para 60 países, Brasil no meio.





