‘‘A indústria do petróleo é uma indústria bélica. Ela busca algo mais que o ganho. Ela também se move pelo poder.’’
François Perroux (1903- 1987), economista francês

Barril sem pólvora
Barril a US$ 23 tem massa crítica para provocar um terceiro ‘‘oil shock’’ na economia global? Os analistas do ramo juram que um novo choque, a dólar de hoje, é coisa para US$ 40 o barril. E o mercado não tem espaço para uma nova fuzarca energética. Haveria substituição do petróleo por fontes alternativas hibernadas e haveria conservação maior de combustível – maior volume de produção ou serviço por unidade de energia.
Foi o que se viu desde a primeira onda de choque da Opep, há 26 anos. A economia moderna aprendeu pela catequese do tranco e do bolso a consumir menos e a substituir mais. O próprio mercado do petróleo, especialmente a partir do segundo ‘‘oil shock’’, o de 1979, descobriu-se auto-regulável. Lucros de rei Midas despertaram a gula de campos fora da Opep, tais como os do Mar do Norte, do Golfo do México, do Mar da China e da então ativa União Soviética.
Preços acima de US$ 45 o barril relançaram no mercado jazidas caducas e ocorrências de pequeno porte, até então antieconômicas. E o espalhamento universal das práticas de conservação de energia (que também embarcaram no bonde da primeira onda ambientalista) precipitou de vez o ajuste do mercado para baixo. A Opep, que no primeiro puxa-tapete respondia por dois terços da oferta mundial, recuou em dez anos para menos de 40%.
Resultado: em 1986, o barril do ‘‘brent’’ londrino já estava, a dólar de 1973, abaixo de US$ 10. Ou seja: o mercado livre não se defende. Ele apenas se vinga. Até mesmo um país distraído da América do Sul, chamado Brasil, cuidou de substituir o óleo alheio pelo petróleo-é-nosso. Em duas décadas de escalada na pesquisa e na lavra, a dependência do Brasil ao barril importado despencou de 83% para menos de 40% do consumo interno.
A própria Opep, com seu recente pacto de retenção da oferta, sabe que não vale a pena cutucar essa onça com vara curta. Mesmo com baixos estoques nos dois lados do Atlântico Norte (a menos de 100 dias da alta estação do frio) e com os primeiros sinais de recuperação econômica da Ásia, a próxima reunião do cartel, dia 22, pode decidir pelo aumento da oferta. Antes que México, Rússia e Noruega, fora do bloco, saiam faturando, ainda a bom preço, a reposição daqueles estoques.
A mercado financeiro não se enerva com esse arremedo de crise. O petróleo enche a bolsa de emergentes encalacrados tipo México ou Rússia, não mais consegue desestabilizar o Brasil e levanta o valor de mercado das megaempresas americanas e européias do setor de energia. Big business um tanto quanto entediado até outro dia.




Secos & Molhados
Tranco duplo
- O Brasil não se abala, mas sente o golpe na importação suplementar de petróleo. Desde janeiro, o dólar ficou 58% mais caro em real. E o barril, 122% mais caro em dólar...
Verde de raiva
- Para o consumidor, já devidamente corrigido no tanque, a alta do barril lá fora descongela a idéia do imposto verde aqui dentro. Tributo dito seletivo sobre os derivados de petróleo. Em parte, vinculado a novos incentivos ao álcool carburante.
Volta por cima
- Nada contra a reabilitação do carro a álcool. A agroindústria canavieira ainda emprega no campo e na cidade 1,3 milhão de patrícios.
Vôo da águia
- Nos Estados Unidos, as montadoras festejam a alta do petróleo. Paradoxo. A gasolina já dobrou de preço e isso acelera o projeto conjunto de redução do peso médio do carro em 45% e do consumo em mais 30%. Pactuado para o ano 2007.

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