Joelmir Beting
Os governos ficaram pequenos demais para resolver os grandes problemas e grandes demais para resolver os problemas pequenos.
Arthur Schlesinger, historiador americano
Para voltar a crescer
Com o Avança Brasil, o governo aposta em crescimento econômico de 4% no ano que vem e de 5% na média anual do triênio 2001/2003. Essa meta é compatível com a capacidade de poupança e investimento do setor privado (incluída a ração suplementar da poupança externa). A meta também não conflita com as projeções de inflação (IPCA) de 6%, no ano 2000, de 4,3%, em 2001, de 3,4%, em 2002, e de 2,9%, em 2003.
Esse exercício de bola de cristal, sortilégio do planejamento econômico em qualquer tempo e lugar, joga com o parto de montanha do ajuste fiscal e com uma relativa calmaria no cenário internacional - começando pela Argentina aqui ao lado. A mesma aposta tem a ver com a conquista e a manutenção de uma taxa cambial de equilíbrio, usinada pelo mercado em liberdade.
Metade dos analistas econômicos sustenta que o Avança Brasil, nome artístico do Plano Plurianual de Investimentos, se compromete com a política do possível e não com a ousadia do desejável. Ocorre que a outra metade dos estudiosos da cena brasileira entende que o Avança Brasil deveria (e poderia) ousar mais, comprometendo-se com crescimento anual de 7% para o mesmo período 2000/2003. Até porque seria esse o piso do PIB para levantar o emprego na economia que se moderniza em todos os setores.
De onde tirar a impulsão para esse salto de 7% ao ano? Nas hostes do desenvolvimentismo induzido em rota de colisão política com o monetarismo enrustido (o da estabilidade monetária a qualquer custo) há pelo menos dois coelhos nessa cartola de mágico. Primeiro: medidas radicais no front da guerra santa contra o déficit público. Sem uma descarga sanitária na gastança dos três níveis de governo (da ordem de 38% do PIB), não há como destarrachar o garrote tributário que desencoraja o investimento (re)produtivo, patrocina a informalização da economia, gratifica a sonegação a céu aberto e subverte a concorrência em todos os mercados.
Pois o Avança Brasil não ousa colocar a mão nesse vespeiro. Por uma simples e boa razão: a palavra final é da Câmara e do Senado e não da equipe econômica ou mesmo do Palácio do Planalto. Que o diga a meia-sola no rombo atuarial da Previdência. A reforma do regime especial do setor público, feito de abusos adquiridos fantasiados de direitos adquiridos, bem que poderia vestir a carapuça recortada pelo ex-ministro Clóvis Carvalho: O excesso de cautela é o outro nome para covardia.
Secos & Molhados
Segundo coelho
- A causa maior do marca-passo da economia brasileira é o arrocho monetário criogênico e autofágico. O crédito mais curto e mais caro do mundo civilizado destrói a apetência das empresas e torna explosiva a dívida pública que financia a gastança pública.
Ajuste na mira
- Pois o ajuste monetário, na direção de crédito maior a custo menor (nas duas pontas), está a caminho. O corpo técnico do Banco Central trabalha no assunto (necessariamente sigiloso). E algumas medidas tópicas já estão rolando nessa direção.
Farra bancária?
- Longe disso. Os empréstimos ao setor produtivo não passam de um terço do PIB, contra mais de quatro quintos da média internacional. Dá para duplicar o crédito e cortar pela metade a gordura dos juros.
Abrindo a jaula?
- Não. A tal da inflação de demanda, terror dos monetaristas, está sendo espancada pelas chibatas da competição e da modernização. Esta reduz custos. Aquela congela preços.





