Joelmir Beting
O bug do milênio é uma neurose de países desenvolvidos. Para o Brasil, é mais um complicador, entre tantos outros.
Cláudio Citrin, diretor do BankBoston
Deu bug no dólar
Só faltava essa. Profissionais do mercado financeiro apontam o medo do bug que se aproxima com data marcada como uma das causas da recaída do nervosismo no mercado cambial brasileiro. Ou seja: dólar acima de R$ 1,90 - cuja taxa de equilíbrio estaria em torno de R$ 1,80 - também tem a ver com fuzarca digital que ronda o setor bancário e a economia em geral na virada de 1999 para 2000. Lembrando: computadores e equipamentos chipados com campos de data de dois dígitos para o ano podem traduzir o 00 do ano 2000 para 00 de 1900. E tome simulações do Juízo Final na atual decolagem da Economia da Informação.
O que o dólar tem a ver com isso aqui no Brasil? Seguinte: os bancos e fundos americanos, europeus e japoneses devem entrar em recesso defensivo a partir de novembro. Haverá, em dezembro, uma crise de liquidez de alcance global. Para o Brasil, com mercado cambial flutuando sem liquidez desde junho, não mais haveria condição técnica para renegociar dívidas e realizar captações externas entre o Finados e o réveillon.
Consultores de bancos estrangeiros avisam que o mercado internacional estará literalmente fechado no fim do ano, em caráter excepcional.
Bancos e fundos querem enfrentar o bug com o máximo de depósitos e o mínimo de créditos (ou de riscos). Fala-se em redução de até 70% nas operações bancárias de novembro e dezembro. E com a maioria dos bancos passando a exigir das empresas, já a partir de outubro, atestados de que tomaram todas as providências para desmontar as armadilhas do bug (incluídos os respectivos fornecedores e distribuidores).
Pelo sim, pelo não, as grandes empresas brasileiras estão testando programas de defesa contra o bug. Elas já cancelaram férias e viagens na virada do ano e estabeleceram regimes de prontidão operacional dos principais executivos entre 27 de dezembro (segunda-feira) e 5 de janeiro (quarta-feira). O movimento é encabeçado por bancos e afins e por empresas de energia, telecomunicação, informática, química e transportes. Nada de festança no réveillon ou de férias a partir do Natal, recomenda Renato Opice Blum, consultor jurídico para assuntos do bug.
Ele diz à coluna que há toda uma indústria de ações judiciais já montada para fazer o escalpo milionário de empresas que venham a causar danos à clientela ou à sociedade por panes nos respectivos sistemas. E o pior: uma em cada três empresas, em todo o mundo, não mais tem tempo para safar-se do bug. Palavra do Gartner Group.
Secos & Molhados
Alarmismo?
- Alan Greenspan, czar das finanças globais, já admite um choque recessivo na economia mundial em dezembro e janeiro - por causa da provável crise de liquidez atrelada ao bug. Já testado - O sistema bancário brasileiro já foi testado e aprovado duas vezes este ano. E participou em julho de uma simulação conjunta de compensação internacional com 538 bancos de 19 países. Sem grilo algum.
Contingência
- Empresas que já removeram o bug devem costurar até dezembro planos de contingência para defender-se de panes provocadas por terceiros no réveillon. Falta de luz, por exemplo.
E quinta-feira?
-Depois de amanhã (data 9/9/99) pode pintar um primeiro bug de arquivo em nossos micros. Outra data com mina digital instalada: o sistema pode não reconhecer 29/02/2000 como ano bissexto e virar direto para 01/03/2000.





