Joelmir Beting
Os juros no Brasil estão na estratosfera porque na tomada de crédito o setor privado sem opção é atropelado pelo setor público sem juízo.
Albert Hutchinson Jr., consultor americano
Na base e na ponta
Já imaginaram juros reais de 7,4% ao ano na base do sistema financeiro verde-amarelo de espanto? Taxa básica de padrão internacional? É o que promete o Orçamento-Geral da União para o ano 2000. Amarrando as colunas de receita e despesa com base em expansão de 4% para a economia (PIB) e de 6% para a inflação (IPCA), a carpintaria orçamentária joga com juros médios nominais de 13,4% ao ano (na rolagem da dívida pública) e com aumento real de 12,7% na arrecadação tributária (sem reforma).
A taxa de piso do sistema, vulgo Selic, permanece em 19,50% ao ano. A caminho de 18% até dezembro, na percepção de parte do mercado e na intenção do governo. Que acaba de renovar o compromisso com Selic real de 10% para o Natal, jogando com IPCA gregoriano de 8%. Até agosto, o IPCA deve ter acumulado 5%.
Na base do sistema, tudo bem. A taxa de juros pode cair até por decreto, a da decisão soberana do Banco Central. O problema, para 166 milhões de brasileiros esfolados, está nos juros cobrados na ponta dos empréstimos bancários e não bancários. São taxas de mercado que não dependem de decisões e muito menos de intenções da autoridade monetária. Taxas igualmente descoladas do viés da Selic. São os juros cravados no lombo arriado da economia real de quem investe, produz, emprega, trabalha e consome.
A queda das taxas no front dos empréstimos teria de ser rápida e drástica, do tamanho da overdose do garrote monetário que atrofia os negócios e os empregos. Até aqui, só as grandes empresas brasileiras estão com o pescoço a salvo desse garrote digno da inquisição espanhola da Idade Média (onde os garroteados eram os banqueiros da usura excomungada). Primeiro, porque as grandes têm grife maior e risco menor para levantar empréstimos lá fora, a um custo médio de 16% ao ano.
Segundo, porque são por natureza da lógica capitalista os clientes preferenciais do sistema financeiro. Com direito e tratamento favorecido em taxas, prazos, garantias e reciprocidades.
Nesta altura do calendário, por exemplo, esses mutuários de grande porte estão se permitindo o luxo de substituir o crédito externo mais reticente pelo crédito interno mais sorridente. O risco Brasil cresceu lá fora e o dólar subiu aqui dentro. E os juros internos estão em suave declínio para a clientela bancária de elite. Até porque os bancos se tornaram ainda mais seletivos e exigentes para as empresas de médio e pequeno porte, com índice de inadimplência de 9%. E com provisão bancária de até cinco vezes o montante dos créditos de retorno periclitante. Recordes de calote e de provisão.
Secos & Molhados
Sanguessuga
- No setor público, com o desmonte do imposto inflacionário cresceu o sufoco orçamentário. Esburacado, o governo financia-se com mais impostos e mais dívidas. A emissão de títulos da dívida substitui a emissão de moeda sem lastro.
Pelo rescaldo
- Os bancos só podem emprestar livremente ao setor privado pouco mais de 15% dos depósitos à vista. Caso único no mundo. Esta semana, o governo baixou de 20% para 10% o recolhimento sobre depósitos a prazo.
Jogando a toalha
- O garrote monetário provoca algo mais que inadimplência, estagnação e desemprego. Enche a bola da desnacionalização da economia. A consultoria KPMG informa que das 144 incorporações de maior peso no primeiro semestre, 102 tiveram empresas estrangeiras na ponta compradora.
Jogo bruto
- Nacionais ou estrangeiras, o Custo Brasil é o mesmo nos impostos, nos encargos, nos transportes, etc. e tal. Mas não nos juros. As estrangeiras operam entre nós com custo financeiro (e cambial) de três a cinco vezes menor.





