Joelmir Beting
Nosso negócio é muito simples: se sai mais do que entra, nóis quebra.
Valdomiro Ferreira Dias, sitiante de Itajubá, MG
Contas de chegar
O Brasil vai fechar as contas externas este ano, garante Luiz Fernando Figueiredo, diretor de Política Monetária do Banco Central. Em tempos rombudos de crise global, é pelas frestas do déficit externo em conta corrente que penetram as hordas dos ataques especulativos contra a moeda nacional. Nos cálculos do governo, o déficit de US$ 25 bilhões, este ano, deverá ser coberto, integralmente, pela ração suplementar de capitais produtivos das multinacionais.
A transfusão anual das múltis estava calibrada, em janeiro, para menos de US$ 14 bilhões, um terço abaixo do ingresso recorde do ano passado. O salto para US$ 25 bilhões resulta da desvalorização nominal do real da ordem de 50% (dólar médio de R$ 1,80). Com ela, as múltis ganharam um poder real de compra dos ativos brasileiros de aproximadamente 38% até agosto.
Tecnicamente, o quadro fiscal está sob controle. O Orçamento 2000 aposta em superávit primário (sem a conta dos juros) de 2,6% do PIB. Para variar, menos por redução da despesa e mais por robustez da receita. A dívida pública lastreada em títulos federais (em poder do público) totalizava R$ 225 bilhões em 30 de junho, reinflada pelos juros. Mas melhorou em perfil, com o prazo médio dos títulos avançando de 8 meses, em janeiro, para 13 meses, em agosto. Com praticamente um terço dela chumbado à correção cambial, nova paixão nacional.
A trégua no front das contas públicas favorece a redução dos juros na base e na ponta. O que atrapalha é o nervosismo do mercado cambial em liberdade. Acima de R$ 1,80, o dólar pesa mais do que realmente vale. A sobrevalorização da moeda americana resulta de movimentos especulativos, da deterioração de expectativas e que não se perca de vista da escassez crônica de divisas.
Ou como observa o consutor Luiz Paulo Rosenberg: Olha-se muito para os indicadores monetários, fiscais e políticos para justificar o nervosismo cambial de agosto. A questão de fundo é que não há dólares dando sopa no mercado. A liquidez cambial é tão ínfima que basta a remessa ou o ingresso de US$ 100 milhões para deslocar a cotação da moeda americana do declive para o aclive ou vice-versa. O mercado caminha descalço num fio de gilete. No campo minado das contas públicas Rosenberg diz que o pior está para acontecer: Estamos sentados na bomba-relógio do déficit enorme e crescente da Previdência, já perto de 5% do PIB. E trombar com esse déficit, a golpes de reforma da reforma, é zerar o capital político do governo. Afinal, como diria o príncipe, nem tudo o que o povo deseja é o que o povo realmente precisa.
Secos & Molhados
Vai explodir
- Pesquisador do Ipea, Francisco Eduardo Barreto de Oliveira sustenta que o déficit montante da Previdência contrata hoje o fim do superávit primário de amanhã. Coisa para 2002.
Uma sinuca
- A volta do déficit primário deixará o futuro governo em sinuca de bico, diz Barreto de Oliveira: 1) na despesa, a margem política é mínima para o corte de gastos; 2) na receita, a carga tributária já está acima da capacidade contributiva da economia e da sociedade.
Qual é a saída?
- O pesquisador do Ipea aponta duas: a) ou a radicalização das reformas por uma classe política ainda não alarmada; b) ou a retomada furiosa das emissões de títulos públicos para financiar os déficits públicos.
Para o abismo
- Barreto de Oliveira suspira fundo: Fica clara a opção suicida pela dívida pública. Ela nos remeteria ou para a inflação indexada ou para a moratória interna...





