‘‘Os empresários têm de sobreviver num Brasil que teima em maltratar quem produz, gratificar quem especula e estimular quem sonega’’
Tancredo Neves (1910-1985), político.

Operação Juros
Nem só de Plano Plurianual de Investimentos, anunciado ontem, vive o Avança Brasil de FHC. Para a reativação monitorada do consumo, da produção e do emprego, o presidente ordenou ao Banco Central que apronte, até outubro, uma estratégia de ampliação cautelosa do crédito bancário ao setor produtivo, com redução progressiva dos juros na ponta dos mutuários sem alternativa.
Nenhum governo ajuizado se permite revelar futuras decisões de política monetária (nem de política cambial). Passar aviso prévio de uma tempestiva ‘‘distensão monetária’’ da economia arrochada empurraria o mercado financeiro para a especulação em sentido contrário. De sobremesa, travaria a economia real na espera desse refresco creditício, desaquecendo ainda mais os negócios em geral.
Ocorre que a Operação Juros realmente já foi acionada por decisão palaciana. Claro, ‘‘respeitados os fundamentos técnicos’’ da empreitada assim tão melindrosa. O presidente e seu ‘‘staff’’ político partem da percepção coletiva de que há muita gordura para queimar nas taxas de juros para investimento, produção, giro e consumo. Assim como é muita curta a massa de crédito bancário à disposição dos agentes econômicos. Eventuais sobras de liquidez bancária não têm passado de subutilização de financiamentos extorsivos.
A coluna martela essa tecla não é de hoje: o crédito bancário ao setor produtivo não tem passado de 35% do PIB, contra mais de 80% na média mundial. E os juros na ponta (versus 19,50% ao ano na base) permanecem na média de 49,60% no desconto da duplicata ou de 59% no capital de giro. Para as pessoas físicas (ou cívicas), a Usurabrás S.A. vai de 163% ao ano no crediário de loja a 278% no cheque especial de banco, a 294% no rotativo de cartão de crédito ou 326% no empréstimo das financeiras. Valha-nos Santa Edwiges!
A revista Dinheiro, edição desta semana, antecipa sete lances da Operação Juros. Primeiro: rebaixar os recolhimentos compulsórios (de até 75% dos haveres bancários, recorde mundial). Com oferta maior, os bancos poderão ganhar menos sobre cada vez mais e não, como até aqui, mais sobre cada vez menos.
Segundo, reduzir os direcionamentos obrigatórios de créditos à agricultura e à habitação (ativos ociosos). Terceiro: amaciar a cunha fiscal amoitada na intermediação financeira, da ordem de 48% da taxa final (sem igual no mundo). Quarto: simplificar a burocracia das operações de crédito. Quinto: especificar nos contratos (e nos anúncios) a estrutura das taxas finais de cada operação. Sexto: endurecer a seleção de crédito e desencorajar o calote proposital. Sétimo: estimular maior competição de bancos estrangeiros.




Secos & Molhados
Pela base
- Pois hoje é dia de decisão do Banco Central sobre a taxa básica Selic, piso do mercado financeiro, fixada em 19,50% ao ano. Se não mexer na taxa, hoje, haverá nova reunião dia 22.
Para baixo
- Quem aposta em nova redução da Selic fala em corte cosmético de apenas 0,25%. Seria uma redução tecnicamennte viável e politicamente correta. Chega de ‘‘más notícias’’ por decreto.
Para cima
- Há quem acredite em alta purgativa de 0,25%. Culpa da deterioração do cenário político, da nova especulação cambial, da inflação do tarifaço, da elevação de 0,25% da taxa americana e das cólicas na Argentina, Venezuela, Colômbia e Equador.
Meteorologia
- Selic estável, em baixa ou em alta? Isso lembra aquela previsão meteorológica que nunca falha: chuvas esparsas em pontos isolados, com melhoria no decorrer do período.

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