‘‘Aquele que pensa que sabe o que vai acontecer no Brasil deve estar muito mal informado.’’
Alain Touraine, ‘‘brazilianist’’ francês

Acorde e progresso
O título é do publicitário Carlito Maia e serve de invólucro político para o novo Plano Plurianual de Investimentos, que o presidente Fernando Henrique Cardoso coloca em órbita nesta terça-feira. Trata-se de um cardápio de projetos públicos e privados para a travessia de 2000 a 2004. Rotulado de Avança Brasil, o plano cobre os três últimos anos do governo FHC e ‘‘avança’’ para o primeiro ano do governo seguinte. Se é que se pode imaginar o presidente fazendo seu sucessor nas urnas de outubro de 2002. O lançamento do programa de desenvolvimento não é uma resposta à Marcha dos 100 Mil pelo Brasil. O governo trabalhava nesse ‘‘plano de vôo’’ desde fevereiro. O anúncio ficou para este 31 de agosto porque se trata do último dia, em lei, para a remessa ao Congresso do Orçamento-Geral da União para o ano seguinte.
Na mesma linha do Brasil em Ação, o Avança Brasil identifica e classifica projetos prioritários para investimentos na infra-estrutura econômica e social. Eles totalizam R$ 165 bilhões em quatro anos. Ou R$ 41 bilhões por ano. Cerca de 4,5% do PIB de 1998. O setor público entra com 40% (R$ 66 bilhões) e o setor privado com 60% (R$ 99 bilhões). No Brasil em Ação, essa divisão está em 67%/33%.
Para voltar a crescer, sustentadamente, pela média histórica do período 1950/1980, da ordem de 7% ao ano, a economia brasileira terá de (re)investir de 25% a 27% do PIB. A contribuição do Avança Brasil (4,5%) não chega a um quinto desse desafio. A munição do setor público, isoladamente, é de apenas 1,8%. Ou seja: o setor privado terá de investir, no mínimo, 23%/ 25% do PIB. Algo parecido com R$ 225 bilhões por ano, a preços de hoje.
Sondagens do IBGE, da FGV e do Ipea indicam que os investimentos privados andam marcando passo abaixo de 19% do PIB. Incluída, nessa taxa, a generosa contribuição do capital produtivo das multinacionais, estimada em 2,6% do PIB (a dólar de 1998) na média do triênio 1997/99. Como o setor público está com a poupança zerada, a retomada do crescimento sustentado e duradouro terá de passar, necessariamente, pela reforma do Estado brasileiro. O modelo que faliu é o da economia de comando e não o da economia de mercado.
O detalhe: a recuperação do mercado de trabalho exige para o PIB verde-amarelo uma expansão anual de 7%. No mínimo. Abaixo disso, em matéria de emprego, estaremos enxugando gelo com toalha quente. Primeiro, porque a modernização das empresas aumenta a quantidade de produto por unidade de trabalho. Segundo, porque a oferta demográfica ainda é de 1,7 milhão de jovens por ano.




Secos & Molhados
Chutometria 1
- Para o PIB deste ano, há quem admita uma expansão de 0,5%. O que exigiria um avanço de 1% no segundo semestre, contra o recuo de 0,50% no primeiro.
Chutometria 2
- Para o ano que vem, a projeção otimista joga com 4% de crescimento para o PIB, sob o teto de uma inflação de 6% (IPCA). Seriam estas as bitolas para o produto e os preços na costura do Orçamento Geral da União/2000.
Único atalho
- Qualquer que seja o crescimento do PIB 2000, a reativação dos negócios privados continuará refém do saneamento das contas públicas. Único atalho para a recauchutagem da popularidade do governo e da credibilidade do Congresso.
Esquecimento
- Virou moda política exigir novo modelo econômico. A oposição não se lembrou de exibir essa opção na Marcha dos 100 Mil. Foi assim, sem modelo próprio, que ela reelegeu FHC um ano atrás.

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