Joelmir Beting
Todas as noites eu rezo pelo Brasil.
Paul Samuelson, Prêmio Nobel de Economia (1970)
Poderia ser pior
Manchete econômica da semana, a economia brasileira andou para trás no ano passado, com o Produto Interno Bruto (PIB) recuando 0,12%. A novidade não está na retração da atividade econômica. A percepção coletiva do ano perdido vem desde novembro de 1997, tempo de choque monetário preventivo e de tranco tributário corretivo, por obra e (des)graça da crise global importada da Ásia amarela de susto. A novidade está no tamanho da marcha à ré agora documentada pelo IBGE: nada além de 0,12%.
Tecnicamente, a coisa está menos para recessão e mais para estagnação, vulgo crescimento zero. Pois até que saiu barato. O Brasil refez-se do choque asiático, ensaiou dar a volta por cima no terceiro trimestre do ano (reta final da reeleição de FHC) e bingo! A Rússia resvalou para a moratória em agosto e o Brasil se obrigou, em setembro, vestido finalmente de bola da vez, a refazer o garrote monetário já então amaciado. Com direito a um novo ajuste fiscal politicamente obsoleto: recarga de impostos sem corte de gastos. Em novembro, fechando a roda, uma ruidosa internação na UTI do FMI.
Realmente, foi pequena aquela retração de 0,12%. Mas foi assim, com freio de mão puxado, que a economia brasileira iniciou a travessia do campo minado de 1999. A primeira mina estourou logo na primeira curva de janeiro: a da moratória da República do Juízo de Fora. Que zeraria a contagem regressiva para a implosão da âncora cambial do Plano Real.
Então anunciada como o Dia do Juízo Final. E tome aritmética da catástrofe! Consultores, economistas, empresários e sindicalistas prognosticaram para este ano recessão de até 7%, inflação de até 85%, desemprego de até 14% (pelo IBGE), taxa básica de juros de até 75%, desvalorização cambial de até 130%, moratória inescapável da dívida interna e um FMI tirando o corpo e o cofre fora (tal como já fizera na Indonésia e na Rússia).
Os cenaristas do apocalipse contribuíram, irresponsavelmente, para sabotar e retardar o ajuste cambial que se seguiria ao choque cambial. Ajuste que deveria ter sido festejado como solução e não como problema.
A sinistrose assim retemperada congelou projetos, derrubou negócios, cancelou contratos, barbarizou expectativas. Quantos brasileiros perderam o sono, a saúde e o emprego sob essa metralha dos terroristas da análise econômica?
E, mais uma vez, entre mortos e feridos, escaparam todos exceto os desempregados. No primeiro semestre, o PIB encolheu apenas 0,42%. E leva jeito de emplacar crescimento de 0,50% no segundo. O desemprego pode ficar abaixo de 8% e o IPCA idem. Com taxa de juros, a Selic, da ordem de 18% na véspera no do Natal.
Secos & Molhados
Perda maior
- A estagnação da economia derruba o produto por habitante, porque a população brasileira continua crescendo 1,9% ao ano. Para um PIB total de R$ 899,8 bilhões, a preços de 1998, o produto per capita foi de R$ 5.334.
Década perdida
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Na década de 80, o PIB cresceu 33%. Nesta década de 90, ensaia fechar com apenas 23%. De 1994 a 1998, crescimento de 18%. O produto por habitante, 9,3%.
E o emprego?
- Para voltar a crescer, o mercado de trabalho vai precisar de um PIB crescendo 7% no mínimo. Desde julho do ano passado, o desemprego aumentou 9,6% na indústria brasileira. A queda maior, de 12,8%, ocorreu em Minas Gerais.
Contramão
- A economia desacelerou, a inflação quase acabou, mas a carga tributária dos brasileiros subiu, nesta década, de 24,4% para 32,6% do PIB (incluída a sobrecarga de 1999).





