Joelmir Beting
Há séculos discute-se o que os governos devem fazer. Que tal passar a exigir só aquilo que os governos realmente podem fazer?
Peter Drucker, consultor de Administração
Efeito Tocqueville
A cuado em sua solitária do Poder, o cientista político Fernando Henrique Cardoso, que está presidente da República, bem que poderia fazer, nesta vigília da Marcha dos 100 Mil, uma releitura do que o então professor de Sociologia da USP escrevia ao tempo do AI-5 que o exilaria no Chile, na França e no Canadá.
Há exatamente 30 anos, o schollar FHC lançava o livro Proletariado no Brasil. Ditando coisas assim: Graças à mobilidade social, estamos escapando das condições de privação para as condições de consumo. Isso reduz o questionamento do regime político. Mas, paradoxalmente, amplia o questionamento do sistema econômico. Na mobilidade social, o grau de insatisfação pessoal e coletiva não declina. Bem ao contrário. Aumenta em demanda, muda de conteúdo e cresce em urgência.
Naquela quadra, saída da recessão purgativa para a eclosão do milagre brasileiro no triênio 1971/73 (com PIB de 14% ao ano), a distensão econômica ocorreu sob o tampão da repressão política. Na impossibilidade do questionamento do regime militar, contestou-se a concentração da renda no interior da exuberância econômica. O detalhe: a fatia do trabalho na renda nacional, em 1973, alcançou 53%, contra 47% da fatia do capital. Hoje, 30% vs. 70%. Um horror!
Com a Marcha dos 100 Mil, consagração da redemocratização do Brasil, partidos de oposição questionam a legitimidade política de um presidente com índice de rejeição popular da ordem de 59% (Vox Populi).
Queda livre atribuída ao fracasso da estabilização econômica sob o guarda-chuva da liberdade política Fiasco do Real grifado pela oposição em pelo menos quatro frentes: 1) estagnação do setor produtivo; 2) ganância estimulada da economia capinanceira; 3) alienação do patrimônio público de monopólios estatais privatizados e/ou desnacionalizados; 4) índice recorde de desemprego.
Sitiado por aliados políticos mais corrosivos que os ativistas da oposição, FHC suspira fundo: A verdade é que o Real, derrubando a inflação, desconcentrou a renda de 0,61 para 0,52 do Índice Gini (de 1993 para 1996). Ou seja: a exclusão diminuiu no Brasil. O que aumentou foi o barulho sobre a exclusão. O que é um passo à frente para não se deixar relaxar nessa batalha. No mais, o sociólogo-presidente recepciona a Marcha dos 100 Mil com a reflexão do chamado Efeito Tocqueville: O povo que suporta com resignação os males da tirania passa a contestar todas as coisas no fim da opressão. O sofrimento coletivo diminui, mas a tolerância popular simplesmente acaba.
Secos & Molhados
Quem é quem?
- Tocqueville assinava Charles Alexis Clérel de Tocqueville (1805-1859). Historiador e filósofo francês, com carreira parlamentar, deixou ensaios suculentos que o transformaram em ideólogo predileto da moderna democracia americana.
Perigo maior
- Outro pensador e político francês, Georges Benjamin Clemenceau (1841-1920) nos adverte: Quando o povo desperta, expectativas então fraudadas são mais incendiárias que necessidades sempre ignoradas.
Efeito Veblen
- Pesa igualmente no momento brasileiro o Efeito Veblen: Em tempo de reformas estruturais e institucionais, a pequena minoria dos prejudicados (não raro, os privilegiados) faz muito barulho contra as mudanças. A grande maioria dos favorecidos por elas reage com indiferença (não raro, com ignorância).
Quem é quem
- Economista e sociólogo americano, Thorstein Veblen (1857-1929) é o fundador da escola institucional de análise econômica o do papel das instituições na ordenação do capitalismo.





