‘‘Se recessão e desemprego derrubassem mesmo a inflação, Collor, o Demolidor, teria acabado com ela’’
José Maria de Jesus, motorista de táxi
Remédio ou veneno?
A receita do velho purgante monetarista reaparece no balanço positivo que o Conselho de Administração do FMI acaba de fazer sobre o desempenho da economia brasileira pós-implosão da âncora cambial do Plano Real. O estado-maior do Fundo recomenda uma puxada nos juros da base se a inflação brasileira, agora medida pelo IPCA do IBGE, romper a jaula de um dígito numa projeção para os próximos 12 meses. Nos últimos 12 acaba de acumular 10,83%.
O esquema de metas inflacionárias, inaugurado pelo Banco Central no mês passado, joga com IPCA de 8% para este ano, com redução tímida para 6% no ano que vem e para 4% em 2001. O relatório do FMI considera essas metas do ‘‘inflation targeting’’ verde amarelo perfeitamente factíveis – se ultrapassada, em setembro, a bolha inflacionária do tarifaço de junho/agosto.
Com a ressalva do Fundo: ‘‘O Banco Central precisará manter-se especialmente atento à medida que a retomada da demanda for ganhando impulso. Quaisquer reduções futuras nas taxas de juro devem ser abordadas com cuidado. Para assegurar a credibilidade da política monetária, as autoridades devem estar prontas para elevar os juros se a inflação subir acima das metas estabelecidas. Alguns diretores consideram que seria apropriado adotar banda mais estreita para os alvos inflacionários.’’
Tradução: para a ortodoxia do FMI, só a recessão segura a inflação pelos chifres. Recessão fabricada por juros ainda mais altos e por créditos ainda mais escassos. E mais: ‘‘O Conselho de Administração nota que as metas anunciadas para a inflação até o ano 2001 são relativamente conservadoras.’’ Daí a sugestão para uma revisão dessas metas para baixo, com endurecimento ainda maior da política monetária já devidamente recessiva ou criogênica.
Os conselheiros do FMI certamente ignoram que o Brasil vem praticando, desde a década passada, o maior garrote monetário do mundo civilizado. A massa de crédito bancário à disposição do setor produtivo não tem passado de um terço do PIB – contra mais de três quartos do PIB em países ricos, pobres e emergentes. E os juros na ponta do consumo ainda trafegam pela média de 9,08% ao mês – a mais alta taxa de usura do mundo.
Ora, não é preciso remontar a teoria keynesiana do juro para demonstrar que a austeridade monetária brasileira, assumida bem antes da intromissão do FMI, peca de há muito por overdose – que transforma remédio duro em veneno puro. Desde quando juros ionosféricos para investimento, produção, giro e consumo contribuem para rebaixar custos? Inflação reprimida nunca foi inflação suprimida.




Secos & Molhados
Cesta básica
- Vigiada diariamente pelo Procon/Dieese, a cesta básica está abaixo de R$ 120. Alta acumulada de apenas 13% desde a estréia do Real há 5 anos e 55 dias. Sem congelamento, sem tabelamento, sem crediário da usura e sem retração de demanda.
Quem tem juízo
- Em setores travados ou em negócios acesos, os preços livremente praticados pelo mercado estão com IPCA perto de zero. Os preços administrados pelo governo é que estão com correção anual de dois dígitos.
Não é por aí
- O FMI que deixe nossa demanda em paz. Inflação anual de um dígito? Simples: que o governo pare de brincar com aumentos de tarifas e de tributos para financiar a gastança pública. Que tal reduzir gastos ao invés de elevar juros?
Até quando?
- Será que não sabemos errar sozinhos? Essa idéia de elevar juros na base é digna de um Jim Jones com crachá do FMI. Maior o juro, maior a dívida, maior o déficit, maior o risco, maior o juro.

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