Joelmir Beting
Afinal, o Brasil não é um país doente.É um país bêbado. É diferente.
The Economist, revista inglesa.
Câmbio do medo
Na área econômica, o Brasil ainda não melhorou, mas já parou de piorar. Na arena política, as coisas vão de mal a pior. Despenca a popularidade do governo e desaba a credibilidade do Congresso. Merecido castigo para uma classe política ainda desligada do estado de emergência nacional. E que teima em queimar o tempo escasso e precioso das reformas inadiáveis no trato de picuinhas de gabinete e de abobrinhas de palanque.
Resultado: um quase clima de pânico no topo do mercado financeiro. Que é do ramo do sobressalto, matéria-prima da especulação. Os executivos do ramo administram expectativas para o bem e para o mal, ainda que descoladas de relevantes indicadores da economia real. A chamada deterioração das expectativas é que explica a nova neura do mercado cambial - que faz a ponte pênsil entre o ambiente interno e o cenário externo.
Na tomada de riscos com base em expectativas metafísicas, os profissionais de mercado preferem errar por excesso de zelo. A ordem é fazer projeções pessimistas. Espécie de hedge profissional. Se elas se confirmam, os acionistas e os investidores nada perdem. Se elas não se confirmam, a explicação vem a cavalo e a caráter: É porque tomaram providências com base em nossas advertências.
E tome dólar bem acima do que a moeda americana realmente vale ou pesa. No pico de ontem, com alta no mês do tamanho da inflação projetada para todo o ano, o dólar acumula uma valorização de 63% desde a implosão da banda cambial em janeiro. Mesmo com a bolha inflacionária do choque cambial antes do carnaval (com recarga da atual bolha inflacionária do tarifaço trapalhão de junho/julho/agosto), o dólar deveria ter se contentado com uma correção acumulada, até aqui, de no máximo 40%.
O problema é que o mercado em liberdade é técnico, pero no mucho. O câmbio não deixa de ser uma cotação de bolsa, especulativa por vocação, natureza e necessidade. Tecnicamente, o dólar não se sustenta por muito tempo acima de R$ 1,90 ou mesmo acima de R$ 1,85. Bancos e empresas fortemente comprados em dólar, desde a semana passada, sabem que estão pagando caro por esse hedge político do custo Brasil agora ampliado para custo latino, se incluída na equação do medo o que se passa hoje na Argentina, na Colômbia, na Venezuela e no Equador. Ufa! É duro ser emergente!
Afinal, qual seria hoje a taxa de equilíbrio do câmbio? Seria a da média de junho e julho. Algo parecido com dólar a R$ 1,77.
Secos & Molhados
Três lances
- O refluxo desse novo porre cambial do Brasil bêbado passa por três lances: 1) decisão do Fed sobre juros nos Estados Unidos; 2) solução técnica e justa para o colapso financeiro da agricultura em pé de guerra; 3) retomada da agenda positiva das reformas no governo e no Congresso.
Ovelha Negra
- Na poeira do tarifaço desavisado, o setor industrial começa a repassar custos para preços. No IGP da FGV, a inflação no consumo (IPC acumula este ano 6%). No atacado ou na produção (IPA), já totaliza 16%! Cuidado!
Selic na moita
- Se o Fed subir os juros lá, o Copom não baixa os juros aqui. Se a taxa não subir lá, ainda dá para baixar o Selic aqui. Mesmo com o dólar ousando reprisar o terrorismo econômico de fevereiro.
Eletrizante
- Nós, da informação econômica, sem domingo nem feriado, podemos até morrer de susto. De tédio, jamais. ãClimatempo Meteorologia, 1999Todos os direitos reservados





