Joelmir Beting
Não basta responder aos anseios dos sem-terra. É preciso resolver os problemas dos com-terra, vestidos de sem-renda.
José Ignácio Bortolotto, engenheiro-agrônomo
Âncora verde de raiva
Os produtores rurais não querem dar calote de R$ 18 bilhões no Tesouro Nacional. Nem seria esse o rombo real de um perdão de 40% da dívida impagável da agricultura sem opção. A menos que se entenda por crédito sem retorno a correção monetária abusiva de empréstimos que desrespeitaram a cláusula da viabilidade econômica dos contratos de financiamento agrícola.
O desvio de rota até hoje sem cobertura começou no desastrado Plano Collor, de março de 1990. A invenção da TR cesta de taxas de juros de mercado e não de índices de preços do campo descasou as pontas de juros cobrados e de preços recebidos. Os saldos devedores foram corrigidos em 74,6%. Os preços de garantia, 41,28%. Trancos recorrentes recepcionaram as safras anuais subsequentes. Uma sistemática transferência de renda da economia rural para a economia capinanceira. Uma transfusão de sangue ao contrário: do paciente atropelado para o motorista que o atropelou.
Como desgraça pouco é bobagem, deu-se na década da descapitalização de lavouras e rebanhos um segundo descasamento na equação financeira dos mutuários encalacrados: preços recebidos pelas colheitas trafegando abaixo da variação dos preços pagos pelos respectivos insumos. Essa deterioração dos termos de troca foi festejada nos gabinetes planaltinos e nos orçamentos familiares como âncora verde do Plano Real.
Deterioração também na safra deste ano. Aumentos de 14,2% para o milho ou de 13,2% para a soja versus aumentos de 37,6% para os herbicidas ou de 46,1% para os inseticidas. E o que dizer da queda de 27% dos preços em dólar nos produtos exportados versus alta de 54% dos preços em real nos insumos importados?
Balanço da inadimplência rural: apenas 48% da dívida vencida em 1977 foi quitada. Ou nada além de 22% no ano passado. E da dívida antiga, securitizada e reescalonada no grito, só 35% das duas parcelas que já venceram foram pagas. Sem mistério. Não existe crédito barato (ou menos caro), com juros de 8,75% ao ano, quando o preço futurado na colheita não cobre o custo empenhado na produção. E com média de 24% na carga fiscal, um recorde mundial.
O protestaço de Brasília, esta semana, o do MCT (Movimento dos Com-Terra), vai além da contestação da dívida bancária. É um Grito da Terra por algo mais que uma reforma agrária do MST. (Movimento dos Sem-Terra). É a cobrança de uma reforma agrícola de mercado. Ali no rodapé de uma classe política que, como se viu em julho, na rebelião de carretas, caminhões e jamantas, só funciona quando pega no tranco, no berro e no susto.
Secos & Molhados
Uma ninharia
- O colapso do crédito rural só não estremece os alicerces da República porque os empréstimos alcançam menos de 5% dos produtores e menos de 10% do PIB agropecuário. Caso único no mundo civilizado. Crédito total de US$ 7 bilhões para 1999/2000.
Quem banca
- Os produtores empenham recursos próprios e preferem ser financiados, no custeio, pelos fornecedores de insumos. E na colheita, pelos consumidores industriais. Ainda assim, crédito curto e caro.
Patinando
- Desde 1994, a safra anual de grãos não consegue alcançar a meta de 100 milhões de toneladas. Não vai ser a próxima, com plantio a partir da semana que vem. Redução de insumos nas culturas perenes e de insumos e de hectares nas lavouras anuais.
Eternamente?
- Gigante ainda deitado em berço de ouro, o Brasil é a maior promessa não cumprida da agricultura universal.





