‘‘Se governo e Congresso remarem no mesmo ritmo e no mesmo rumo, teremos estabilidade monetária com crescimento econômico. Se não...’’
Armínio Fraga, presidente do Banco Central
Balão-de-ensaio
A reforma tributária, que teria massa crítica para ser a reforma das reformas, ainda não passou da divulgação do parecer preliminar do relator Mussa Demes (PFL-PI). Parecer que a Câmara Federal começa a examinar a partir de hoje. Pois esse balão de ensaio já está sendo metralhado, fora do Congresso, pelos interlocutores do governo federal e por todos os governadores e prefeitos de caixa baixa e pavio curto.
Para variar, a proposta não consegue passar pelo mata-burros da chamada ‘‘partilha do poder fiscal’’. Ou seja: com quem vai ficar o recurso arrecadado, lastro político do discurso já empenhado. União, Estados e municípios já descobriram que a soma das partes não mais consegue ser maior que o todo. Até porque a redivisão dos tributos arrecadados não bate, necessariamente, com a cobertura dos encargos redistribuídos. Reforma tributária aciona a coluna da receita e não, tempestivamente, a coluna da despesa.
Em entrevista ao Estado (16/8/99), o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, admitiu que a desconfiança coletiva em relação ao formato, ao conteúdo, ao alcance e ao cronograma das reformas — incluída a tributária — explica o crescimento do risco Brasil na percepção dos empresários brasileiros e dos investidores estrangeiros. E tome a lógica obtusa do mercado: 1) maior o risco, maior o juro; 2) maior o juro, maior a dívida; 3) maior a dívida, maior o déficit; 4) maior o déficit, maior o risco; 5) maior o risco...
Essa perda de credibilidade no ajuste fiscal empacado cobra tributo pesado nesta altura do calendário. Primeiro: desvalorização do real acima da ‘‘taxa cambial de equilíbrio’’, dólar valendo mais 4,5% em agosto. Segundo: fechamento progressivo do mercado externo para lançamento ou rolagem de títulos brasileiros, já no oitavo mês da flutuação do câmbio. Terceiro: protelação de negócios privados, no aguardo da tal de luz verde no fim do túnel da sinistrose nacional. Com direito a novo soluço inflacionário. Ou pior: inflacionista.
Uma pena. Há exatamente um ano, o mundo inteiro tremia nas bases e nas pontas com a moratória da Rússia. O Brasil estava na marca de pênalti da famigerada ‘‘bola da vez’’. O câmbio emparedado não tinha cintura, o déficit externo estava em alta (financiado por capital volátil), apelou-se para nosso choque defensivo nos juros, já se falava em pedido de socorro ao FMI, o desemprego furava a barreira dos 7%, a reeleição de FHC deixava de ser favas contadas.
Armínio Fraga diz que o cenário 99 é bem melhor (ou menos ruim) que o cenário 98. Só falta o tal de mercado apostar nisso.



Secos & molhados
Eles tremem
- Donos do capital volátil e bancos estrangeiros fecham a cara e o cofre para o crédito do Brasil lá fora e ficam ‘‘comprados’’ contra o real no câmbio livre aqui dentro. O detalhe: uns e outros nada perderam até agora no Brasil.
Linha dura
- No primeiro semestre, empresas brasileiras colocaram US$ 6,4 bilhões em títulos no mercado externo. Muito ou pouco? Ano passado, no mesmo período, captaram US$ 17,1 bilhões.
Elas apostam
- Donas do capital produtivo, as multinacionais continuam apostando no Brasil dos próximos cinco anos, ignorando o Brasil dos próximos cinco meses. Elas já investiram, este ano, perto de US$ 18 bilhões. A caminho de US$ 21 bilhões até dezembro.
Guarda-chuva
- Armínio Fraga diz que essa transfusão de capital produtivo deve cobrir quase todo o déficit externo em conta corrente. Por ele estimado, para este ano, em US$ 23 bilhões.

mockup