‘‘Inflação de 10% ao ano é muito pequena para o Brasil do passado e muito grande para o Brasil do presente. Aí é que o tarifaço pega.’’
Maílson da Nóbrega, consultor
Eclipse mental
A inflação fabricada pelo governo, em julho, foi de 1,06%. A inflação balanceada pelo mercado, também em julho, não passou de 0,03%. Total: um IPCA de 1,09%. Esse índice, produzido pelo IBGE, ganhou prestígio político porque foi escolhido pelo Banco Central para balizar o sistema de metas de inflação, copiado do ‘‘inflation targeting’’ inventado pelo Banco da Inglaterra.
A decodificação do índice de julho em dois campos (o dos preços administrados pelo governo e o dos preços livremente praticados pelo mercado) revela que a inflação não tem massa crítica para romper as jaulas da estabilização armada e vigiada pelo Plano Real. Assim aconteceu no choque cambial antes do carnaval da perplexidade nacional.
E assim deve ocorrer nesta sinistrose de agosto, com a recarga do catastrofismo intermitente encarapitado, desta feita, no tarifaço trapalhão.
Ah! Dizem que a inflação não decola porque a economia está atolada na recessão. Uma verificação equivocada, para não dizer preguiçosa. O IPCA do Real despencou, ano a ano, de 916%, em 1994, para 1,6%, em 1998, sem pegar o atalho da recessão. No período, um IPCA acumulado de 76%. Em cinco anos, o PIB cresceu pela média anual de 3,8%. Dentro dele, a cesta básica, com vendas crescendo pela média anual de 7,4%, contentou-se com inflação acumulada de apenas 18%! Palavra do Dieese.
O mercado livre não precisa de recessão purgativa para descartar a remarcação de preços. Nem aqui no Brasil de Pedro Malan nem nos Estados Unidos de Alan Greenspan. O mercado prefere rebaixar custos a golpes de modernização das empresas. Modernização atiçada em escala nunca vista pela competição de fora para dentro e, já agora, também aqui por dentro. A modernização rebaixa custos. A competição transfere esse ganho também para os preços e não apenas para os lucros.
Com o Plano Real, as empresas aprenderam a competir e as pessoas aprenderam a pechinchar. Ou, simplesmente, a deixar para amanhã o que não precisa ser comprado hoje. Antes, não havia competição na economia tutelada do Brasil. Havia intervenção. Havia indexação. Com custos inchados transferidos para preços voláteis. Com consumidores antecipando-se ‘‘à alta do dia seguinte’’.
Antes, as empresas atuavam em bloco para se defender da intervenção. Agora, é o salve-se quem puder na atropelada da competição. O interventor até congelava preços. O competidor, pior ainda, tem a mania de rebaixar preços...




Secos & Molhados
Eclipse 1
- Bancos estrangeiros projetam dólar a R$ 2,12 para agosto do ano que vem. Eles são do ramo. Em janeiro, esses mesmos bancos sustentaram que o dólar chegaria até R$ 3,50 ainda em 1999. Muita gente perdeu o sono, a saúde e o emprego por causa dessa cartomancia supostamente recheada de álgebra.
Eclipse 2
- O mercado financeiro, especialmente nervoso, para não dizer neurótico, trabalhou ontem (sexta-feira, 13 de agosto) com duas notícias ‘‘made in USA’’. Uma boa, outra má. A boa notícia: a economia americana vai muito bem, obrigado. A má notícia: a economia americana vai muito bem, obrigado. Freud explica? Nem Friedman.
Eclipse 3
- A ordem, agora, é atravessar a semana que vem de nariz torcido e com freio de mão puxado. Mundo inteiro, Brasil no meio, aguardando a próxima reunião do Fed, dia 24. A economia real que se dane. Isso não é crise global. Isso é neura geral, com pinta de pane mental. A mídia coisa-preta deita e rebola.

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