‘‘Na prática bancária, existe o risco que jamais se deve correr e existe o risco que nunca se pode deixar de correr’’
Peter Drucker, ideólogo da administração
Líquidos e sólidos
Os bancos brasileiros lavaram a égua e a alma no primeiro semestre da sinistrose nacional bruta. Na média dos balanços publicados por 15 bancos, rastreados pela consultoria Austin Asis, o bloco destilou uma rentabilidade anualizada de 35,3% sobre o patrimônio líquido consolidado. Resultado sem paralelo no setor financeiro do Brasil - pátria de bancos líquidos e sólidos dentro de uma economia ainda porosa e gasosa.
Quem arrebentou a boca do cifrão foi o Itaú. Rentabilidade de 39,3%, contra 13,6% do Bradesco ou 21,5% do Unibanco. O relatório semestral do Itaú mata a cobra e mostra o pau. O encaixe recorde de R$ 1,094 bilhão superou o custo total da folha de 39.430 funcionários no semestre. Salários, comissões, encargos e benefícios totalizaram R$ 1,012 bilhão.
Qual foi o toque de Midas do Itaú, do alto de um patrimônio consolidado de R$ 56,3 bilhões? Primeiro: ganhos de tesouraria com a carteira de títulos públicos. Segundo: ganhos cambiais com a estrutura de ativos externos.No estoque de títulos públicos, posição tecnicamente conservadora, o Itaú faturou a alta corretiva dos juros pós-choque cambial de janeiro. Nos ativos externos, o ganho extraordinário, não recorrente, da correção cambial de quase 50% no primeiro semestre.
O banco comandado por Roberto Setúbal informa que a valorização contábil dos ativos permanentes no exterior foi da ordem de R$ 535 milhões. O patrimônio fora do País soma US$ 1,437 bilhão em bancos, agências e subsidiárias na Argentina, Portugal, Estados Unidos e Cayman. O pessoal da Austin Asis lembra que o Itaú é o banco brasileiro com maior carteira de títulos públicos e com maior atuação direta no mercado internacional.
O Bradesco, ativo total de R$ 76,8 bilhões, prefere concentrar seu poder de fogo - desde a arrancada bucaneira de Amador Aguiar - na genuína vocação bancária de captação de poupança popular para cacifar empréstimos em geral. O maior banco brasileiro também lidera o mercado de seguros e de previdência privada.
Nas artes de emprestar dinheiro, os bancos brasileiros divertem-se com ‘‘spreads’’ mui elásticos para os padrões internacionais. Na ponta dos financiamentos ao consumo, incluídos os empréstimos pessoais, a rentabilidade do setor é clamorosa. Em julho, segundo a Anefac, as taxas médias de juros do sistema foram de 11,74% ao mês no rotativo do cartão de crédito e de 11,73% no cheque especial. Só ficaram abaixo das taxas cobradas pelas financeiras no crédito pessoal: 12,84% ao mês. Ou 326% ao ano!




Secos & Molhados
Freud explica?
- Na base, a taxa Selic é de 1,50% ao mês. Na ponta, a taxa das financeiras é de 12,84%. Na mesma ponta, bancos de montadoras de automóveis oferecem, em promoção, taxas mensais de 0,98%. Abaixo do IGPM de 1,55%, em julho.
Pelo crediário
- Nos shoppings de São Paulo, o Dia dos Pais superou em 9,5%, em vendas reais, a fatura de 1998. Acima das expectativas pós-tarifaço de julho/agosto. O crediário bancou dois terços do movimento.
Ainda no escuro
- O crediário de loja força o consumidor a embarcar num contrato sem transparência. Pesquisa da Anefac revela que 63% dos anúncios do varejo não definem os juros cobrados e 98% não informam as taxas anualizadas.
Inadimplência
- Os bancos estão devidamente cobertos contra empréstimos de liquidação duvidosa. As reservas sobre créditos ruins são de 283% no Bradesco, 402% no Unibanco e 448% no Itaú.

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