‘‘Em política, quem não tem problemas, inventa problemas.’’
Nicolau Maquiavel (1469-1527), filósofo florentino

Sem desconfiômetro
Governo e Congresso bem que deveriam ligar o desconfiômetro. Está mais que na hora de parar de consumir 97,6% do tempo de cada um na discussão de picuinhas e abobrinhas do próprio expediente político. Este, encarado como fim em si mesmo. Essa enrolação planaltina amolece a gestão administrativa do primeiro e empobrece a produção legislativa do segundo.
A classe política ainda não se tocou da gravidade da situação nacional na vanguarda financeira do campo econômico e na retaguarda biológica do campo social. Ela ainda imagina que dá para continuar empurrando com a barriga a carpintaria das reformas estruturais e institucionais de que o País carece há pelo menos duas décadas. Políticos de carreira ainda não se ligaram no enfrentamento desse estado de emergência nacional.
Uma empreitada digna do trabalho de 12 Hércules e do fôlego de sete gatos. Que exige de cada burocrata do Executivo, de cada policrata do Legislativo e de cada aristocrata do Judiciário uma overdose de empenho pessoal, feita de 49% de profissionalismo e de 51% de patriotismo. Era o que se esperava para o fim do anacrônico recesso parlamentar de julho. Houve até quem apostasse, agora em agosto, na decolagem da chamada Agenda Positiva. Que, há exatos 15 anos, advento da Nova República, era trombeteada como Muda Brasil, moeda eleitoreira do PMDB hegemônico.
EEis que, neste Brasil 99, que ainda se permite o luxo de aumentar impostos velhos e de inventar tributos novos, políticos federais, estaduais e municipais engalfinham-se numa grotesca luta- livre no rodapé da distribuição, protelação e ampliação de donativos fiscais para projetos de gigantes multinacionais. E que tal fiscalizar melhor em vez de tributar mais? Nem pensar. A ordem é desaparelhar e desestimular os profissionais da arrecadação de tributos e encargos em geral. Incluídos os encargos sociais do INSS quebrado e do FGTS fraudado. Fechar os ralos legais da evasão tributária e da elisão fiscal ainda é sonho de uma noite de inverno. Há toda uma indústria de facilidades jurídicas incrustada em nosso sistema tributário caótico, perverso e suicida.
Cortar gastos na moldura dos desperdícios os recursos escassos? Gastos públicos que devoram 38% do PIB? Isso igualmente revira o estômago de avestruz de populistas fantasiados de estadistas. Caso da vergonhosa partilha de contribuições e benefícios da Previdência Social já tecnicamente falida. A reforma em gestação no Congresso não consegue ultrapassar o mata-burros de ‘‘direitos adquiridos’’ que nunca passaram de abusos adquiridos. Não raro, legislados em causa própria no Legislativo e no Judiciário.




Secos & Molhados
Só no tranco
- Governo e Congresso foram atropelados por jamantas e carretas em pé de guerra. A combustão espontânea dos caminhoneiros aponta para um Brasil permissivo que só pega no tranco, no tapa, no grito, no susto.
Dando carona
- Os caminhoneiros ensinam que, em se agitando, tudo dá. Incluídos tiros pela culatra e petardos no próprio pé. E tome, em agosto, mês do cachorro louco, agitações orquestradas de rua do MST, da CUT, do PT, da UNE, da OAB, da CNBB.
Piorômetro
- A quem interessa a exploração rasteira dos vazios da sociedade e dos desvios da autoridade? Sabota-se no plano político a retomada do crescimento econômico. A chave é inventar problemas artificiais para um Brasil já sufocado de problemas reais.
Agenda triste
- Problemas políticos inventados este ano: moratória mineira, sinistrose cambial, grampo criminoso, guerra fiscal, CPI dos bancos, CPI do Judiciário, ACM vs. Temer, ACM vs. Malan, reforma ministerial, tarifaço desavisado, imposto da pobreza...

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