‘‘O poder sem abuso não tem a menor graça.’’
Paul Valéry (1871-1956), poeta francês

Choque no tanque

Por quilômetro rodado, é um escândalo o caminhão pagar pelo pedágio mais do que paga pelo diesel. Então, para acabar com o escândalo, ao invés de reduzir o pedágio, o governo aumenta o diesel. E cos€ la nave và...
A tirada é de Geraldo Vianna, diretor da Confederação Nacional do Transporte (CNT), deplorando a nova mordida dos combustíveis neste primeiro sábado de agosto. ‘‘Se o próprio governo admite que não está programando nenhum outro reajuste para este ano, diz ele, por que não deixar esse novo aumento para setembro ou outubro?’’ Resposta: porque o FMI não aprovaria essa protelação. Ficou acertado, desde o acordo de novembro, que o governo sacaria, este ano, da esotérica conta petróleo, um saldo limpo de R$ 5,9 bilhões. O acordo não contava com a desvalorização de quase 55% do real nem com o aumento de até 120% no preço do petróleo importado. Até porque carta de intenção foi inventada para ficar na intenção.
Resultado: para cobrir o rombo entre o projetado e o realizado, o bloco dos derivados de petróleo acumula, este ano, a partir de hoje, um aumento médio de 62,3%. A inflação de sete meses, medida pelo IGPM-FGV, totaliza 9,9%. Já incluída a bolha inflacionária do reajuste anterior dos combustíveis, coice de 13% em 25 de junho. No mês passado, a carestia no consumo do paulistano, segundo a Fipe, cravou 1,04%. Nove décimos desse tranco por obra e graça do tarifaço da gasolina amarela de susto. Ou azul de espanto.
Com ou sem o monitoramento do FMI, o choque inflacionário de preços e tarifas administrados pelo governo resulta menos de uma recomposição de defasagem intencional (imolada no altar da estabilização do Real) e mais de uma urgente ‘‘política de caixa’’ para o acerto contábil das finanças públicas fora de esquadro.
A Petrobrás, para o governo brasileiro, não é uma empresa do setor produtivo. É uma rubrica do déficit público. Até investimento em nova refinaria, ainda que cacifado com recurso próprio, é lançado como passivo do Tesouro Nacional. Ou seja: a Petrobrás desfila crachá de agente/ paciente do (des)ajuste fiscal.
Até quando? Até deixar de ser propriedade do Estado trapalhão. No mais, o tarifaço petrolóide de agora embarca no antigo enigma contábil do monopólio estatal. Seguinte: quando o preço do petróleo sobe lá fora, os preços dos derivados sobem aqui dentro. Mas quando o preço do barril importado cai pela metade, como ocorreu no ano passado, ninguém em Brasília se lembra de rebaixar os derivados no mercado interno. Até porque nenhum burocrata sabe, até hoje, qual é o custo real do petróleo nacional...




Secos & Molhados
Paramétrica
- Pois o governo acaba de desistir da fórmula paramétrica que faria sua estréia também hoje. Por ela, os preços dos derivados ficariam formalmente indexados à taxa de câmbio e ao repasse automático de novas altas do petróleo importado.
Paripatética
- Recoloca-se o controle da inflação no trono da caneta palaciana - agora que o ‘‘inflation targeting’’ passa a bitolar as expectativas da sociedade. Ah! A meta do superávit da conta petróleo é rebaixada para R$ 3,4 bilhões. Sorry, FMI.
Qual é o peso?
- Alta do petróleo importado? É bom lembrar que ele cobre apenas 37% do consumo interno de derivados. Na gasolina, com 24% de álcool nacional, o peso do importado não passa de 26%.
Dedo na ferida
- Editorial do Estado: ‘‘O governo mantém relação fiscal incestuosa com a Petrobrás. É difícil distinguir tarifas e tributos nos reajustes dos derivados. A história seria outra se houvesse concorrência na produção, refino e importação de petróleo.’’

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