Joelmir Beting
Depois da tempestade, vem a inundação.
Título de antigo anúncio da Light S.A.
Caminhão virou mico?
Desde a estréia do Real, em julho de 1994, os custos do transporte de cargas, nas cidades e nas estradas, subiram 89%. Os fretes rodoviários, no mesmo período, aumentaram 77%. O óleo diesel, no mesmo período de cinco anos e dois meses, contentou-se com reajuste acumulado de 67,6%. Os pedágios não perderam a viagem da privatização e acumularam remarcação de até 238%.
Eis o pano de fundo do locaute dos caminhoneiros, quase todos operando hoje no vermelho. Na média da categoria, perto de 210 mil autônomos com frota de 275 mil caminhões estradeiros, a margem líquida de ganho nos fretes cobrados não tem passado de 8%. Qualquer problema de manutenção do veículo, de confusão na estrada, de atraso no plano de viagem, de falta de carga de retorno e eis a margem de ganho transformada em prejuízo certo.
Para as 12 mil empresas transportadoras, com frota total de 340 mil caminhões, donas de 50% do mercado nacional, o negócio também não é refresco. Uma em cada dez empresas do ramo fechou os portões nos últimos 12 meses. Entre outras, a inadimplente Dom Vital. Ela deixou 3.184 profissionais sem trabalho.
E o que dizer das concessionárias das rodovias já privatizadas? São 35 empresas igualmente de nariz torcido. Elas informam que investiram no ano passado perto de R$ 2 bilhões para uma receita anual de R$ 910 bilhões - a dos pedágios. Pagamentos das concessões em leilão, dos financiamentos internos e externos e dos investimentos em restauração, modernização e ampliação das rodovias protelam para o ano 2007 os primeiros lucros contábeis dessas empresas. Claro, se a ruptura das regras do reajuste anual dos pedágios, provocada pela rebelião dos caminhoneiros, não fizer do contrato de concessão um papel sem bigode e sem caráter.
Resumo da ópera: Nélio Botelho, líder do Movimento União Brasil Caminhoneiro (dos caminhoneiros autônomos); Romeu Nerci Luft, presidente da Associação Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas (das empresas transportadoras); e Moacyr Duarte, presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (novos donos da malha privatizada), podem dar-se as mãos, sentar-se no meio-fio e, como diria Nélson Rodrigues, chorar lágrimas de esguicho. O transporte rodoviário de cargas virou mico do tamanho de gorila.
Eis que o governo atarantado ensaia reajustar também o diesel, não aceita tabela de fretes e desconversa sobre cláusulas do acordo que suspendeu o locaute dos caminhoneiros. Estes, ressabiados, ameaçam parar o Brasil outra vez. Afinal, o povo gostou disso, festeja Nélio Botelho, brandindo pesquisa do InformEstado.
Secos & Molhados
Resistência
- O mercado livre de fretes continua baixista. A oferta de transporte rodoviário tem sido maior que a demanda, em tempo de PIB estagnado. Quem dita o frete é o cliente. Que também não consegue repassar fretes para preços.
Competição
- O modal rodoviário começa a perder mercado para o modal ferroviário (privatizado). Este domina 22% da carga total e apruma-se para abocanhar 30% até 2002. Amanhã, FHC inaugura a Ferronorte em Mato Grosso, extensão da paulista Ferroban.
Macroeixo
- Com a ponte rodoferroviária do Rio Paraná, abre-se a futura ligação ferroviária Santos-Cuiabá. Autêntica ferrovia da produção, a serviço da fronteira agroindustrial do centro-oeste.
Intermodal
- Nos Estados Unidos, pátria do intermodal de transportes, o custo de 1.000 toneladas/km é de US$ 56 na rodovia, de US$ 17 na ferrovia e de US$ 9 na hidrovia. Dá para encarar?





