‘‘Ficou moderno o Brasil. Ficou outro o milagre. A água já não vira vinho. Vira direto vinagre.’’
Antonio Carlos de Brito (1914- 1987), poeta
Buracobrás S.A.
Quatro em cada cinco paulistanos aprovaram o locaute dos caminhoneiros na semana passada, revela pesquisa do InformEstado. Não se sabe qual seria a reação deles se a frota dos pesados em pé de guerra tivesse interrompido o trânsito também nas marginais e não apenas nas estradas. Pimenta nos olhos dos outros...
Para 86% dos entrevistados, os pedágios cobrados nos 81 postos do interior paulista são abusivos. Aí já dá para conversar. Uma carreta de cinco eixos, carregada, que se deslocou ontem da capital paulista para o Triângulo Mineiro, gastou nos 430 quilômetros da Anhanguera, até Ituverava, na fronteira, R$ 160 de pedágio. Bem mais que os R$ 114 do óleo diesel. Pode?
Segundo o Índice Nacional do Custo dos Transportes, da Fipe-USP, o valor médio dos pedágios, desde a estréia do Real em julho de 1994, aumentou 171%, em termos reais, deflacionados pelo IPC. A inflação, até julho, medida pelo mesmo IPC, acumulou 76%. O óleo diesel (que está fora do novo reajuste dos combustíveis) contentou-se, no mesmo período, com aumento acumulado de 67,6%. Abaixo da inflação. Ou seja, o diesel não é o vilão.
O pedágio foi inventado para substituir o contribuinte pelo usuário no financiamento de rodovias estatais ou privadas. Sem ele, o setor privado não investe no ramo e o setor público obriga-se a transferir recursos escassos da área social em transe para o asfalto. Que no interior dá mais foto e voto do que hospital e esgoto.
Nos Estados Unidos, o Congresso aprovou, em 1998, a adoção do pedágio, em larga escala, nas rodovias interestaduais. No lugar das subvenções dos contribuintes em geral, entram os bolsos dos próprios usuários da vasta malha bem conservada e bem sinalizada. O chamado TEA-21 (Transportation Equity Act for the 21st Century) foi aprovado por 297 a 86 na Câmara e por 88 a 5 no Senado.
Entre nós, a Associação Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas (NTC) mostra que 82% da malha pavimentada de 148 mil quilômetros (menos de 9% do sistema rodoviário total) está em condições precárias de conservação e sinalização (pelos padrões internacionais). Cerca de 36 mil quilômetros não têm mais remédio. É reconstrução a partir do zero.
Triste herança da Buracobrás S.A.
Buracobrás S.A. que sempre cobrou um pedágio asinino e oculto. Sem greve nem locaute. Segundo a NTC, a rodovia esburacada aumenta em 38% o custo de manutenção da frota, em 35% o consumo de combustível e em 110% o tempo de viagem. E, fechando a roda, provoca 34% dos acidentes rodoviários. Que tal?




Secos & Molhados
E os fretes?
- O Movimento União Brasil Caminhoneiro cobra uma tabela de fretes mínimos. A Associação Nacional do Transporte de Cargas (NTC), que representa 340 mil empresas transportadoras, discorda: a tabela nivelaria por baixo, pelo menos eficiente.
Um cartel
- A mesma NTC propõe aos caminhoneiros a ‘‘cartelização’’ de um reajuste único dos fretes em exatos 20,44%. Seria essa a defasagem tarifária desde julho de 1994.
Balanças
- A trégua de 60 dias na pesagem obrigatória dos caminhões é o tempo necessário para a revisão dos critérios de aferição das balanças. A pesagem obrigatória desencoraja o excesso de carga. Com isso, ele poupa o caminhão, a estrada e a vida alheia.
Novo pepino
- - Vem aí a inspeção veicular obrigatória. Dois terços dos caminhões dos transportadores autônomos estão rodando há mais de 12 anos, no limite da sucata sobre rodas. Uma frota insegura, poluidora e energívora.

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