Joelmir Beting
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O pedágio dos juros
A recarga da sinistrose nacional, produzida pela ruptura do transporte rodoviário, com sobras para o bloqueio de trens e navios, ocorreu no justo momento em que se desenhava a desejada reversão de expectativas dos agentes econômicos. Pairava no ar, feito neblina em fundo de vale, a percepção coletiva de que o pior já teria realmente passado. Havia quem apostasse no tiro de partida, agora em agosto, de um ciclo de crescimento econômico sustentado e duradouro. Independentemente do saneamento ou não das contas públicas ainda fora do esquadro nos três níveis de governo.
O câmbio de mercado, que tende a trafegar pela bitola elástica de R$ 1,70 a R$ 1,80 por dólar, deixou de ser um problema e virou uma solução. Acabou o risco empresarial da máxi e acabou a neura acadêmica da âncora cambial, a âncora de mentirinha do Plano Real - com inflação, sem ela, outra vez a caminho de zero. Claro, desde que ultrapassado o coice de asno do tarifaço de junho/julho.
Assiste-se, igualmente, a uma cautelosa correção do maior erro de pilotagem do Plano Real. Uma overdose de garrote monetário que não evitou o inchaço do déficit externo e só fez por enfurecer o custo da rolagem da dívida interna que financia o déficit público. Além, claro, de submeter a economia do real, pós-estabilização, a um desempenho bisonho no front do consumo, da produção e do emprego. Sacrifício inútil, sobre ser desagradável.
O crédito mais curto e mais caro da história econômica do Brasil fez sua estréia na década passada. Mas estourou a boca do cifrão nos quatro choques encavalados da crise importada: a do México (março de 1995), a da Ásia (novembro de 1997), a da Rússia (setembro de 1998) e a do câmbio (janeiro de 1999). A taxa básica baixou de 45%, em março último, para 19,5%, anteontem. Isso equivale a uma redução acumulada de 56,67%. Nas barbas de Greenspan.
Acontece que queda dos juros na base não se faz acompanhar da queda dos juros na ponta. Para o tomador de crédito, nos terminais do consumo, a queda dos juros, desde março, não passou, até ontem, de 15,39%, informa Miguel José Ribeiro de Oliveira, vice-presidente da Anefec. A taxa média dos financiamentos do varejo, anunciados para este fim de semana, ainda é de 8,55% ao mês. Ou de 167,44% ao ano - para uma Selic de 19,50%.
Ainda assim, nos shoppings de São Paulo, julho fechou o caixa com vendas de 7% a 10% superiores às do mesmo mês do ano passado (antes da crise russa). Em Campos do Jordão, capital brasileira do inverno, o movimento cresceu, este ano, acima de 20%.
Secos & Molhados
Elo perdido
- Certo. As lojas ainda cobram 167,44% ao ano. Continuam vendendo crédito vestido de produto. Com direito a um calote sob medida. Capaz de destruir Arapuãs e Mesblas da vida.
Sem lógica
- As lojas lavam as mãos e culpam os bancos. Que ontem estavam cobrando 280,10% ao ano no cheque especial ou 286,27% no cartão de crédito. E o que dizer do crédito pessoal das financeiras? Média de 13,16% ao mês ou 340,87% ao ano.
Até quando?
- Crédito da usura explica a retração do consumo, da produção e do emprego. A estagnação da economia também murcha os pneus do transporte rodoviário de carga em pé de guerra. Não há como repassar custos para fretes.
Na pindura
- Se o caminhoneiro penhorar pertences e pingentes na Caixa Econômica Federal pagará 3,5% ao mês. Na compra do rádio do caminhão, ele paga hoje 8,55% ao mês.





