‘‘Quando o povo desperta, expectativas fraudadas são mais incendiárias do que necessidades nunca atendidas.’’
Georges Benjamin Clemenceau (1841-1919), político francês

Pedágios ocultos
O pedágio mais caro do mundo é o asfalto que não existe. O pedágio mais caro do mundo é o buraco no asfalto existente. O pedágio mais caro do mundo é a degradação física e política do transporte intermodal nos últimos 30 anos. O pedágio mais caro do mundo é o terror (e a morte) no roubo do caminhão e da carga. O pedágio mais caro do mundo é o prejuízo com reparação mecânica por falta de manutenção preventiva. O pedágio mais caro do mundo é o amadorismo na gestão de um negócio complexo tido ainda hoje como de arrimo familiar.
O pedágio mais caro do mundo é o crédito proibitivo que trata caminhão como bem de consumo e não como bem de capital. O pedágio mais caro do mundo é a carga tributária asinina que desencoraja o investimento e patrocina a informalidade - e não apenas no setor de transportes. O pedágio mais caro do mundo é fazer greve contra o pedágio a dano da economia e da população. E da própria categoria econômica: quem usa a força perde a razão.
Não existe causa justa quando o método de luta em defesa dela extrapola os limites da responsabilidade social, do interesse coletivo e da cidadania indefesa. Os caminhoneiros fazem uso da ruptura do abastecimento doméstico e do suprimento de fábricas e hospitais um instrumento de chantagem política sem desconfiômetro. Que já se transformou em novo esporte nacional na pátria dos coitadinhos: o bloqueio de ruas, avenidas e estradas por manifestações ‘‘populares’’ que atiram na testa do governo e acertam na nuca da sociedade.
O desmantelamento do sistema nacional de transportes não é invenção do tal de ‘‘modelo neoliberal’’. Bem ao contrário. É o entulho de algumas décadas do pranteado modelo neoestatal. Um Estado brasileiro que se meteu a fazer obras sem fazer contas. Um projeto nacional dopado por inflação aqui dentro e por dívida lá fora. Uma engrenagem de desperdício que fazia de cada cruzeiro o trabalho de apenas 30 centavos. No sistema rodoviário, cada quilômetro de orçamento não passava de 300 metros de asfalto.
Resultado: o transporte intermodal, sob gestão do Estado perdulário, saiu para o acostamento da corrupção e da quebradeira. O colapso ocorreu na década passada. De lá para cá, nada mais se fez para a execução de uma política de transportes digna da emergência nacional. A Associação Nacional de Transporte Rodoviário de Cargas (NTC), das empresas do ramo, tem propostas maduras para toda a logística intermodal do caminhão, do trem e do navio. Mas continua perdida no vácuo mental de governos que escalam para o comando do setor os políticos da barganha partidária da vez.




Secos & Molhados
Universal
- Expediente universal, o pedágio partiu da idéia de fazer o usuário pagar pelo uso particular da via pública. E não o contribuinte de todos os impostos. Ou seria justo aplicar no asfalto o recurso escasso do hospital? Era o que se fazia entre nós.
Para todos
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Em dezenas de países, o pedágio multiplicou- se nas rodovias dignas do nome e invadiu até mesmo as cidades. Mas o usuário lesado por um buraco ou por uma sinalização furada permite- se o luxo de faturar indenizações clamorosas.
Privatização
- O contrato de concessão impõe a reaplicação da receita do pedágio na manutenção, modernização e ampliação da rodovia privatizada. O problema é que andam cobrando em três meses a correção de um estrago de 30 anos.
Mão de gato
- Novo imposto no lugar do pedágio? Já temos tributos sobre a circulação de veículos teoricamente vinculados à conservação rodoviária. Se a vinculação fiscal não é respeitada nem mesmo na CPMF da Saúde Pública em estado de coma...

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